home Didascálias, TEATRO Um Outro Fim Para a Menina Júlia – TNDMII, 8/3/2019

Um Outro Fim Para a Menina Júlia – TNDMII, 8/3/2019

Pois bem, saltem dos cadeirões confortáveis de vossas casas e vão ao teatro! Um Outro Fim Para a Menina Júlia, encenada por Tiago Rodrigues, é magistral! Desde o começo desconcertante em que o público é convidado a entrar em cena, partilhando vinho e presunto com os actores, como parte activa da peça, à fantástica e original forma como toda a história se desenrola no palco, os notáveis flashbacks, em que passado e presente se misturam e dialogam entre si, sempre de forma credível e perceptível, à ironia latente sobre a aceitação de uma vida tranquila como resposta a um sonho que não se viveu, fazem desta peça um memorável evento de bom teatro.

A trama, baseada numa tragédia clássica de luta entre classes (a partir de August Strindberg), em que a filha de um nobre se envolve com um criado, demasiado datada e dificilmente apreensível à luz do século XXI, é desmontada pela presença em palco de um casal pacato, gerentes de um pequeno hotel à beira da estação de comboios, cujos momentos de felicidade são no sossego da noite, quando os hóspedes já se encontram a dormir, e sozinhos partilham a escolha do vinho da casa. João e Júlia, a quem a vida aconteceu mais do que o sonho, maduros, conformados numa espécie de placidez tão própria da aceitação e da tranquilidade, são felizes. Nessa felicidade morna, rememoram os tempos em que o seu enlace quando jovens os conduziu à fuga, à maratona que previam mais longa, até ao lago de Como em Itália, mas que os trouxe afinal ao pequeno Hotel à beira do lago – «porque é triste quando as coisas se chamam exactamente aquilo que são. Os nomes não devem explicar os lugares, mas os espíritos dos lugares.

Notável a presença em palco de Paula Mora, uma Júlia madura que permanece aristocrata na postura e no andar, mas de resto, a todo o elenco de actores experientes e estagiários se reconhece um desempenho de excelência. No passado do casal ficou esquecida uma cozinheira, Cristina, antiga namorada de João, que se manteve ao serviço da casa nobre e reaparece no hotel toda uma vida depois, para testemunhar o que foi feito de João e da menina Júlia. Com ela traz a amargura de ter sido abandonada, «porque a felicidade faz sempre as suas vítimas» e, inevitavelmente, o momento fulcral da peça. Os diálogos partilhados a um mesmo tempo por Júlia jovem e Júlia actual, João jovem e João actual, Cristina jovem e Cristina actual são, a nosso ver, o elemento mais conseguido e inovador, merecedor de aplauso e destaque. De resto, tudo se passa quase sem artifícios, no mesmo espaço cénico, e de nada sentimos falta porque os actores se bastam, porque a peça se basta! Bravo!

No final, porque era dia da mulher, fomos presenteados com a leitura de um texto que apela à realidade, aos factos que ainda hoje separam os géneros, à notoriedade diversa de actores e actrizes com o avançar da idade, porque ainda faz falta chamar o espectador, o mundo, a sociedade à verdade.

Se a peça nos fala da troca dos sonhos pela rotina, do esmorecimento das tragédias pela sua conversão em quotidianos vulgares, de vidas sem história que a História já deixou para trás, e afinal do que é a felicidade, revela-nos também (e sobretudo) aquilo de que o teatro é capaz, quando se trata de verdadeiro Teatro! Saímos muito mais ricos do que quando chegámos e talvez, ainda mais comprazidos com o nosso próprio hotel do lago…

Em cena até dia 23 de Março.

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