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Uma Abelha na Chuva (Livros do Brasil, 2020)

A definição de clássico é sempre traiçoeira, chamariz e grilheta. Gera expectativas, elogios desmesurados e desilusões críticas e aguerridas. Engloba livros que, independentemente do contexto do seu lançamento e conteúdo, abordam com requinte questões universais e intemporais. Uma Abelha na Chuva (1953) enquadra-se sem esforço nesta categoria e Carlos de Oliveira (1921-1981), um dos nomes grandes do Neo-Realismo luso, consegue-o criando cenas indeléveis pelo uso de um português perfeito da primeira à última palavra.
Livro curto e intenso, descreve, já in media res, a decadência de uma família burguesa em poucos dias da sua existência (ou melhor, da sua sobrevivência). Se o conflito é essencial a uma boa trama, encontramo-lo aqui em abundância e nas suas várias vertentes: social, familiar, ético e até estético. O drama é pungente e romantizado para nosso deleite, com os protagonistas – Álvaro Rodrigues Silvestre e D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, sua mulher, casados por conveniência para salvar a face e a fortuna dos nobres Alvas [“sangue por dinheiro” (17)] – imersos na dor existencial, enamorados dela, seus escravos e cultores, envolvidos num constante duelo de vontades e aspirações, presos na voragem de uma rotina de auto-destruição e mesquinhez e na fantasia do passado perfeito e do presente perdido.
Todo o restante elenco, típico de uma vila pequena, perdida entre temporais constantes e escuridão enovoada (uma metáfora feliz para o obscurantismo que reinava à época no País), é meramente acessório aos caprichos e desmandos do casal, funcionando como coro trágico ou grupo de comentadores do mundo exterior à quinta onde definham, ecoando a vox populi, que difunde boatos e meias verdades sobre as suas acções e respectivas consequências.
Desta grupeta, que inclui o filho pródigo/irmão desaparecido e doidivanas que enriqueceu no ultramar, o cura cúmplice e a sua irmã virtuosa, o advogado, o dono do jornal, o cocheiro/capataz Jacinto e a sua amada grávida Clara, entre outros, é precisamente o casal Jacinto/Clara, jovem e pueril, que sofrerá na pele a ira da inveja, ciúme e frustração, num sacrifício fútil ao altar da crueldade, pela manutenção do sagrado status quo. Abelhas apanhadas na chuva inclemente.
Os “truques” do Neo-Realismo estão todos por aqui elencados, desde o narrador não confiável, que flui entre personagens que o assumem, revezando-se e até quebrando a “quarta parede”, à dança entre o eu e o outro, o interior profundo e a visão picada do todo, sempre sem medo de remexer na podridão em busca do ouro no final da garimpa. E as pepitas abundam.
Ao clássico português não poderia faltar o fatalismo e deste trágico Uma Abelha na Chuva levamos essa ressonância tão nossa, mas também o eterno poder da palavra para cristalizar épocas e países inteiros e eternizar imagens com um detalhe tão holístico que nos assombra bem para além do retorno do livro à estante. Obrigatório, juntamente com o filme de Fernando Lopes.

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