home LP, MÚSICA Vijay Iyer Sextet – Funchal Jazz (13/07/2017)

Vijay Iyer Sextet – Funchal Jazz (13/07/2017)

Sexta-feira. O cenário é o mesmo das últimas edições do Funchal Jazz: os idílicos jardins do Parque de Santa Catarina, emoldurados, ao longe, pelo Atlântico. Pelas ruas do Funchal, um sem número de melómanos caminham para uma noite especial, daquelas que certamente ficam na memória. Vijay Iyer não é um músico convencional. Tendo o Jazz como tela de fundo, este pianista nova-iorquino, professor de Harvard, funde nas suas composições uma panóplia de estilos, oscilando entre os sons minimalistas e o experimentalismo electrónico. A atenção e o respeito crescentes que Vijay Iyer vem granjeando ao longo dos anos culminaram com a atribuição ao sexteto do prémio “Grupo de Jazz de 2018”, pela Jazz Journalists Association

A presente digressão de Vijay Iyer visa a apresentação de Far From Over (ECM, 2017), o seu último trabalho de estúdio, que conta com as colaborações de Graham Haynes (no fliscorne e na corneta), Steve Lehman (no saxofone alto), Mark Shim (no saxofone tenor), Stephan Crump (no contrabaixo) e Tyshawn Sorey (na bateria).

No Funchal, Vijay Iyer, que deambulou entre um piano tradicional e um Fender Rhodes, numa lógica post-bop, fez-se acompanhar dos músicos que gravaram Far From Over, com excepção do singular e subversivo Tyshawn Sorey (imerso noutros projectos, por estes dias), substituído pelo baterista Jeremy Dutton. Com a presença de várias vozes capazes de improvisar, Vijay Iyer assumiu a postura de um verdadeiro curador, orquestrando este excepcional grupo de músicos que aportam valências musicais díspares.

Num concerto sem pausas entre as músicas, onde houve espaço para temas gravados pelo Vijay Iyer Trio e até para um tema novo, no qual o Sexteto tem trabalhado, foram as extensas versões de “Poles” e “Far From Over” (temas do último álbum) que se destacaram. Entre o silêncio e o caos, Vijay Iyer denota uma assinalável sofisticação composicional, com assimetrias rítmicas e progressões harmónicas nada expectáveis. A secção de metais do Sexteto assume um papel de primordial neste projecto, ora em contraponto, ora em improvisações intensas e expressivas, por vezes sobre os tão característicos ostinatos de Vijay Iyer.

Steve Lehman e Mark Shim ofereceram à plateia alguns dos melhores momentos de improvisação da noite, enquanto Stephan Crump e Jeremy Dutton aspergiram uma energia inesgotável no contrabaixo e na bateria. Os elementos electrónicos da sonoridade do Vijay Iyer Sextet foram trazidos por Graham Haynes. Através de um processador de efeitos, o filho do lendário baterista Roy Haynes foi filtrando o som da corneta, até atingir atmosferas não menos que hipnóticas.

Vijay Iyer continua a desafiar a realidade através das suas escolhas, por acreditar que a música transforma a vida a cada instante e por sentir que, com ela, é possível prosseguir a luta inacabada pela igualdade, pela justiça e pelos direitos humanos.

Foi precisamente isso que nos disse no final do concerto: “this is Far From Over…”.

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