home Didascálias, TEATRO Worst of – Teatro Nacional D. Maria II (1/11/2018)

Worst of – Teatro Nacional D. Maria II (1/11/2018)

Worst of, peça levada à cena pelo Teatro Praga no Teatro Nacional D. Maria II, faz um percurso pela dramaturgia portuguesa, do pior dela, claro. Uma certa ideia de crise do teatro parece ser o ponto de partida.
Atores bem nossos conhecidos, como São José Correia, Rogério Samora, Márcia Breia, acompanhados de Cláudia Jardim, Diogo Bento, Patrícia da Silva, Pedro Penim, Vítor Silva Costa, dividem-se entre o palco e um palco dentro do palco. E os espectadores/atores em palco, reagem, em cena, às peças a que assistem, no palco, dentro do palco. Confusos? Proposta tentadora essa: a de nos vermos também, enquanto espetadores, nos atores que assistem a outros atores.
De Bernardo Santareno, a Gil Vicente, passando por Stau Monteiro, Garrett ou André Brun. Do burlesco ao naturalista, uma janela de tempo evolui, aparentemente sem sair do lugar, como se condenada a enfadar-nos. Um público crítico, de atores, também eles a representar, reduz ao ridículo o velho teatro, ainda tão presente: todos os trejeitos, todo o fingimento na forma de representar, da cadência das palavras ditas, da previsibilidade do espaço cénico e fala-nos do esforço, do tédio que estão lá.
Uma das personagens/público parece condescender, encontrar uma esperança, uma salvação naquele emaranhado de técnica obsoleta. Como seria de esperar, o incauto é tratado com o descrédito que se atribui à boçalidade, com a displicência com que se acomoda a opinião do romântico “bonzinho”.
E rimos do que vemos, da caricatura do teatro que conhecemos. Rimos muito, pois. Até que as gargalhadas que dispensamos ao exagero, à caricatura do teatro de outrora que tantas vezes encheu o D. Maria II, brindada com entusiásticos aplausos, que se colocam sob a suspeita de um embuste, do ‘fica bem’, dão lugar à sensação de irredutível vazio. Depois das tais gargalhadas, perguntamo-nos se “merda”, “merdinha”, “merdoso”, repetidas até à exaustão, no culminar de diálogos non sense, são afinal a imagem, fétida, que nos querem dar do teatro de ontem, o de hoje quando não se liberta da cartilha de ontem. Será? Possivelmente. Ao que consta a ideia era mesmo essa. Assim confirmam, em entrevista, os protagonistas de Teatro Praga.

Tanta esperança nas escolhas de um diretor artístico como Tiago Rodrigues, que gosta de mostrar (e bem!) que o teatro pode ser arejado e comprometido, e tamanha a desolação quando, chegados ao fim, não sabemos que fazer às gargalhadas que fomos largando. Era isso que pretendia o Teatro Praga? Tudo certo. Se era com desalento que nos queria deixar, se nos queria dar uma espécie do opulência do esterco, cumpriu-se o espetáculo. Certo é que saímos do Teatro D. Maria II mais esquecidos das gargalhadas que ocuparam uma grande parte da peça, do compromisso com dissecar insuficiências, fim tão revigorante, e mais focados nessa falta de esperança para a qual atiraram, ou assim o sentimos, o teatro português. Ainda assim, este antagonismo, a maledicência, o dito “escárnio e maldizer”, é também uma marca da nossa dramaturgia e é inatacável a interpretação dos atores, que recuperam as mais bafientas expressões e manifestações da mise en scène mais retrógrada. Apesar dos pesares, respeitando a tradição, resta-nos desejar “muita merda”, que é como quem diz: “muito boa sorte” ao Teatro Praga. Não deixem de ir ver. Se a indiferença não vos agarra os pés e a cabeça, então o teatro, mal ou bem, aconteceu e, neste caso, se bem entendemos, se for mal, ainda bem.

Foto ©Filipe Ferreira

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