home LP, MÚSICA Youn Sun Nah e Ambrose Akinmusire Quartet (Outono em Jazz) – Casa da Música (23/10/2018)

Youn Sun Nah e Ambrose Akinmusire Quartet (Outono em Jazz) – Casa da Música (23/10/2018)

Se existe expressão musical que contraria a tendência moderna para abraçar a velocidade e o efémero, esta será certamente o jazz, pela relação de intimidade que estabelece com o público, ao exigir deste uma dedicação plena no ato de ouvir o que é tocado e de acompanhar todas as digressões de cada instrumento, até ao momento em que estes se reúnem de novo, dando corpo à harmonia interna de cada música que surge do caos aparente que gere a composição. Youn Sun Nah e Ambrose Akinmusire são duas vozes distintas do jazz contemporâneo, cada uma com as suas idiossincrasias,  ambas brilhantes e hipnotizantes.

Youn Sun Nah apresenta-se em palco como uma personagem quase caricatural da timidez e candura do estereótipo sul coreano. Tímida e recatada, dirige-se ao público com algumas palavras em português, que profere quase num suspiro. No entanto, quando começa finalmente a cantar, mostra-se dona de uma voz que flutua, sem esforço, entre o universo lírico e o scat, num alinhamento transnacional que incluiu canções tradicionais do seu país natal,  uma canção folk inglesa sobre um marinheiro, passando pelo obrigatório Brasil e ainda pelos Estados Unidos, em versões de Leonard Cohen, Tom Waits e Jimi Hendrix.

Acompanhada por um piano, um contrabaixo, uma bateria e uma guitarra, que desenham um cenário musical onde todos os elementos se encontram no seu preciso lugar, Youn Sun Nah lança-se às canções como se fosse dominada por uma súbita descarga de energia e cada tema é interpretado sem falhas, num articulação perfeita entre a voz e os outros instrumentos. O diálogo é a força matriz do jazz e a voz-faz-tudo de Sun Nah estabelece à vez uma conversa com cada um dos instrumentos. No entanto, a guitarra de Tomek Mierniowski parece ser o instrumento mais adequado a esta troca e se em “Momento Mágico” a cantora imita na perfeição o dedilhar da guitarra num scat virtuoso, em “Hallelujah”, canção que por agora será para sempre associada ao fogo de artifício e vozes mais do que enjoativas de cantores de reality shows, o palco despe-se dos restantes músicos e deixa Sun Nah e o seu guitarrista a sós num momento íntimo e enternecedor, que lembra a simplicidade comovente da versão de Jeff Buckley, numa renovação de uma canção desgastada pelas suas múltiplas versões e apropriações. Sun Nah reclama a canção como sua de forma exímia e, vez de a abafar com arranjos excessivos, dá espaço à guitarra, na forma de pequenos apontamentos distorcidos, e à sua voz  particularmente doce e límpida. O concerto fecha com uma vibrante interpretação de “Jockey Full of Bourbon”, de Tom Waits, músico cuja voz suja e cavernosa parece um parente muito distante da de Sun Nah. Nesta interpretação, a cantora sul coreana coloca as cartas na mesa e exibe todos a tessitura da sua voz: leva as mãos ao nariz e altera a sua voz para se assemelhar à do cantor norte americano, para depois lançar um último relâmpago surpresa ao público, que já a aplaude de forma efusiva quando interpreta um dos versos em canto lírico. Um concerto sem falhas que confirma Sun Nah como uma das vozes mais frescas do jazz vocal.

Ambrose Akinmusire é um jovem trompetista norte americano cujo nome tem dos mais falados na cena do jazz contemporâneo e apresentou-se na Casa da Música em quarteto, um formato pouco usual para um trompetista, acompanhado por músicos que apresentam influências tão díspares quanto o hip hop ou o jazz primitivo. Depois do concerto de Sun Nah, onde as referências são facilmente identificáveis e as canções se sucedem de forma organizada e metódica, o quarteto de Akinmusire desarma o público ao iniciar o concerto com um diálogo desenfreado (ou será uma dupla de solilóquios?) entre bateria e piano, aquecimento para a batalha que se segue, feito apenas possível numa banda bem oleada, em que cada elemento lê e adivinha a direção que o outro irá tomar. De salientar a bateria de Justin Brown, antigo colaborador de Ambrose, que parece incansável e que domina o palco pela forma furiosa como toca, quer em solos, quer quando se alia ao piano de Sam Harris, que oscila entre o contemporâneo e o clássico com naturalidade e dita a forma de cada composição.

O trompete surge aqui e ali, com Ambrose a ceder espaço aos restantes instrumentos para trocarem solos entre si, com momentos de excelente qualidade musical que soam incrivelmente inovadores e desafiadores, exigindo atenção redobrada aos atalhos por caminhos tumultuosos que são tomados até que se chegue a um fim, muitas vezes súbito, em que os instrumentos se encontram de novo numa linha melódica única. Ambrose é um trompetista incrivelmente expressivo e virtuoso e os seus solos são marcados por uma destreza e intensidade únicas, que variam entre sons de longo fôlego, que se assemelham a um choro que ameaça quebrar-se (o que nunca acontece), e floreados impressionistas e repetitivos, criando um crescendo que nos deixa suspensos em expectativa pelo que se seguirá.

A música de Ambrose pede ao público um compromisso, uma postura de ouvinte dedicado que este público em particular não parece ter vontade de adotar e que, talvez dada a hora avançada ou o registo tão díspar que foi inscrito pelo concerto de Sun Nah, abandona a sala Suggia em pequenos grupos sempre que a música em palco deixa de tocar. Ouvir Ambrose é uma experiência cerebral e escrever sobre o seu concerto uma árdua tarefa, dada a complexidade do que acontece em palco, sendo a linguagem musical do jazz um dialecto algo hermético e opaco, difícil de deslindar ou interpretar, e muito próximo de um certo expressionismo que, falássemos nós de pintura, se destacaria pela sua intensidade de tons e cores e dramátismo conferido por uma multiplicidade e variação cromática.

Talvez a melhor forma de entender o jazz, e as suas variadíssimas interpretações, esteja ancorada nas palavras de Susan Sontag, quando defendia uma erotização da arte em vez de uma hermenêutica da arte. Num mundo marcado pelo fluxo e constante exposição a imagens, que se apresentam num scroll infinito, ou músicas das quais se escutam meros segundos para que se possa passar à seguinte e ainda a outra. Talvez seja hora de desacelerar a nossa fome voraz pelo imediato e passar à contemplação da obra artística, com tudo o que esta nos exige.

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