home Didascálias, TEATRO A Boda – Teatro Nacional S. João (5/6/2019)

A Boda – Teatro Nacional S. João (5/6/2019)

A Boda (em alemão mais literal, Pequeno Casamento Burguês) é uma das primeiras peças escritas pelo dramaturgo alemão Bertold Brecht (1889-1956). Publicada postumamente, é a única das suas peças “curtas” (de um acto) representada enquanto era vivo (1926), para horror e escândalo da sociedade alemã conservadora da época. Uma comédia de costumes, mas também uma sátira dos valores e aparências burguesas e o seu choque com a realidade do seu inevitável desmoronamento.

“RAPAZ Viram uma peça de teatro chamada “Baal”?
MARIDO Eu vi. Que porcaria.
RAPAZ Mas tem muita força.
MARIDO Então é uma porcaria com muita força. O que é pior que se não tivesse força. Ter talento para escrever porcarias alguma vez foi desculpa? Uma peça não devia ter coisas dessas! (Silêncio.)
PAI Estes escritores modernos tratam a vida da família como se chafurdassem na lama. Quando é aquilo que nós, alemães, temos de melhor…” [Baal foi uma das peças mais polémicas de Brecht].

O cenário é uma sala de jantar, com uma mesa onde os convivas comem e conversam, celebrando o casal recém casado. O desenho de luz e a construção cénica permanecem fiéis às didascálias originais, sem ceder a artifícios ou distracções, num excelente trabalho da equipa de produção. Desde cedo as condutas e os desconfortos familiares ao grupo se vão instalando e intensificando, em paralelo com as garrafas de vinho que se sucedem. As interpretações são, sem excepção, estelares, com o texto a fluir sem percalços e as movimentações desenvolvidas como se reais. O registo de quase caricatura que se sente amiúde vai ao encontro das falas correspondentes, ilustrando instantes em que os vícios são desmascarados ou os confrontos descambam em escárnio e comicidade. Tudo é feito com equilíbrio e fidelidade ao texto, com destaque para os noivos, interpretados por Duarte Guimarães e Sofia Marques.
O Noivo Jakob gaba-se de ter construído os móveis da casa nova, ante o orgulho da sua esposa e o cepticismo dos presentes:

“SENHORA A sério que vocês é que fizeram a mobília toda, aquele louceiro e tudo?
NOIVA Tudo. O meu marido concebeu, desenhou, comprou a madeira, cortou, aplainou, tudo, e depois colou, fez tudo. Ficou linda a mobília, não ficou? (…)
SENHORA Oxalá durem!
NOIVA Mais do que a senhora e do que todos nós! Sabemos do que são feitos! Até a cola foi ele que a fez!”

Mas como quase tudo ao longo do divertido acto, a façanha não foi feliz, e cedo os móveis começam a desfazer-se assim que são utilizados, em simultâneo com as relações entre as personagens, quando postas à prova, expostas nas suas fragilidades, hipocrisias e silêncios cúmplices.

“NOIVO Que língua mais afiada! A senhora dança?
SENHORA Porque é que não abre o baile com a sua mulher?
NOIVO Ah, pois. Anda, Maria!
NOIVA Não, eu queria dançar com o Sr. Hans!
IRMÃ E eu? Com quem vou eu dançar?
NOIVA (Para o Marido.) Não dança?
MARIDO Não. Senão a minha mulher põe-se logo a barafustar.
IRMÃ Mas devia vir dançar. Senão eu fico para aqui sentada a olhar!
MARIDO Isso não, lá por eu não querer! (Levanta-se e dá-lhe o braço.)”

A batalha dos sexos pela hegemonia no contexto matrimonial é descrita com acidez em todo o seu esplendor, amplificada pela dinâmica entre o Marido Hans (João Craveiro) e a Senhora Maria (Rita Loureiro). Entre as palavras ditas, os silêncios pesados e os gestos e olhares reprovadores, assistimos ao último estertor de um matrimónio desfeito. Os ataques são constantes e cruéis, a raiva vociferada de Hans e a ironia ébria e blasé de Maria sintomas de uma imensa solidão a dois.

“MARIDO (Muito excitado, andando de um lado para o outro.) Levantei-lhe a mão e agora o bruto sou eu. Sempre a mesma cantiga. Ela é a mártir e eu sou o bruto. Há sete anos que andamos nisto e eu pergunto: quem foi que me transformou num bruto? As minhas mãos estavam cansadas de trabalhar para ela, nem bater-lhe eu conseguia. Sempre que eu estou bem, ela há de ter uma dor qualquer, e sempre que eu bebo um bocadinho, ela põe-se a contar os tostões, e sempre que eu conto os tostões, ela põe-se a chorar. (…) A partir do dia do casamento, o homem deixa de ser uma besta que trabalha para a sua dona, passa a ser o ser humano que trabalha para uma besta, e isso amarfanha-nos tanto, até que já não há nada que a gente não mereça.”

Depois de algumas revelações bombásticas e indiscrições diversas, indiciando inclusive a possibilidade de traição mútua dos próprios noivos (ou apenas um jogo de sedução entre ambos para combater o tédio da noite festiva), a peça caminha para o seu desenlace já num ambiente mais íntimo e familiar.

O Pai tenta contar as suas histórias inconvenientes e longas sempre que pode, ante o desespero generalizado perante a sua pobre escolha de temáticas mais ou menos escatológicas e indigestas, mas também ele faz o que lhe compete para ir sobrevivendo e salvando as aparências, como confessa perto do final da peça:

“Sempre achei que é melhor contar histórias que não digam respeito a ninguém. As pessoas não gostam nada de ficar entregues aos seus botões.”

Passada a tormenta da Boda, com a despedida de todos os convidados, é isto mesmo que acontece com o novo casal, no trecho mais belo da peça. O reencontro recupera-os para o que os uniu em matrimónio, para a sentimentalidade e partilha que, para além da materialidade e dos esforços de sociabilidade que a vida força sobre as relações íntimas, é demonstrada como intocada e até reforçada pela provação de “segurar as pontas” de tantos possíveis e efectivos pequenos desastres entre amigos.

NOIVA Duas pessoas só não chegam?
NOIVO Enfim, sós.
NOIVA Não gosto desse roupão!
NOIVO Nem eu do teu vestido! (Rasga a parte da frente do vestido de noiva de cima a baixo.)
NOIVA Estragaste-mo!
NOIVO E depois? (Beija-a.)
NOIVA Que bruto!
NOIVO Que bonita! Os seios tão brancos!
NOIVA Ai, estás a magoar-me, querido!
NOIVO (Arrasta a Noiva até à porta, abre-a e fica com a maçaneta na mão.) Lá se vai a maçaneta. Ha! Ha! Ha! Mais uma. (Atira a maçaneta contra o balão de papel que
se apaga e cai.) Anda!
NOIVA E a cama? Ha ha ha!
NOIVO Que é que tem a cama?
NOIVA Vai partir-se!
NOIVO Não faz mal (Arrasta-a consigo.)
(Escuro. Ouve-se o barulho de uma cama a partir-se.)

A cumplicidade ante a adversidade, as gargalhadas partilhadas ao recuperarem cenas do jantar, despertam a esperança do espectador num futuro (presente?) em que, confrontados com as ruínas da uma ideia da civilização (claramente simbolizada aqui pela desastrosa Boda, como prolongamento e celebração da instituição/sacramento religioso do casamento, que apenas prolonga relações infelizes e desequilibradas), sejamos capazes de rir da nossa triste previsibilidade e ineptidão e comecemos de novo, pelo princípio, com verdadeira “cola” que nunca falha e não tem preço: a honestidade, a empatia, a tolerância e o Amor.

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