home Didascálias, TEATRO A Dama das Camélias -Teatro São Luiz, 20/9/2019

A Dama das Camélias -Teatro São Luiz, 20/9/2019

Arrancou bem e de forma surpreendente a nova temporada do São Luiz, em Lisboa, com A Dama das Camélias (encenação de Miguel Loureiro, com interpretação de Álvaro Correia, António Durães, Carla Bolito, Carla Maciel, Gonçalo Waddington, Leonor Buescu, Miguel Mateus, Miguel Sopas, Rita Rocha, Sonja Valentina, Victor de Sousa [voz off]). Bem sei que a peça acabou no domingo, dia 22, mas como só foi possível vê-las nos últimos dias, servirá este texto como pretexto para que a possam ver no Porto, em fevereiro do próximo ano, porque vale bem a pena.
Esta Dama das Camélias versão Maciel, como algures se lê na folha de sala, foi uma provocação um tanto ou quanto exótica, excêntrica qb e profundamente fértil. Um desafio hábil, mesmo que bem arriscado, capaz de surpreender – e estou certo de que terá surpreendido – muita gente que dificilmente imaginaria que um texto do tardo-romantismo francês do século XIX, numa sala com a imponência o S. Luiz, pudesse escapar e libertar-se em direção a uma grande pândega. Pândega, essa, que se entrega ao enredo original do texto com a mesma convicção com que o subverte, exagera e manipula. Libertar o texto ou libertar-se do texto? Essa terá sido, porventura, a questão menos resolvida, não ficando claro se a encenação é moldada pelo objetivo de abrir os campos de possibilidade de releitura e interpretação da obra ou se, pelo contrário, o texto é apenas um belo pretexto (outros haveria) para um tipo de trabalho artístico a que esta equipa se queria entregar. Seja como for, esta é uma adaptação que nada perde em nos deixar nessa dúvida.
A Dama das Camélias, o bem-sucedido romance de Alexandre Dumas Filho (1848) conta a história de Marguerite Gautier (Carla Maciel), mulher parisiense da segunda metade do século XIX, numa França atravessada por convulsões e mudanças políticas, sociais e culturais. Endividada que estava, mas sempre bem flanqueada de pretendentes, conhece o jovem Armand Duval. De origem aristocrata, Duval confessa-se perdidamente apaixonado por Marguerite, que hesitante e ao mesmo tempo tentada, se deixa também apaixonar. Em conjunto fazem planos de outra vida a dois, deixando o passado e a sua herança para trás. Só que as dívidas vão assombrando esse futuro possível e a relação vai sentindo esse assombro, que culmina quando o pai de Armand entra em cena, revelando a Marguerite que Armand havia sacrificado a herança da sua mãe para poder saldar as suas dívidas. Pede-lhe, encarecidamente, que deixe Armand, porque essa é a condição de poder casar a sua segunda filha com um nobre aristocrata, que dificilmente aceitaria ter uma mulher errante como Marguerite na família. Marguerite está doente, cada vez mais doente. Acede e deixa Armand, praticamente sem aviso. O final será mais ou menos o que imaginam.
Tinha tudo, portanto, para ser uma bela tragédia de cinco atos, encenada à medida de uma grande atriz. Essa terá sido, ao que se lê, a tradição da encenação da peça. Só que esta Dama das Camélias versão Maciel vem de outro lugar, bem menos previsível e arrumadinho. Carla Maciel, figura central desta estória, propõe que nos desloquemos para outro lugar. E fá-lo esplendidamente. A sua Marguerite coxeia, e bem, durante toda a peça, num misto de realismo, ridículo e exagero. É sarcástica e brejeira, dama e cínica, pomposa e maliciosa. A tosse da tuberculose da peça original é substituída pela flatulência, que vai aumentando de tom e intensidade à medida que o enredo caminha para o seu destino e Marguerite com ele se arrasta. Peida-se, constantemente, com muita entrega e dedicação.

A tosse substituída pela flatulência é uma mudança paradigmática de toda a peça. Adaptando livremente o texto original, os atores e atrizes entregam-se num jogo delirante, sem nunca perder o sentido narrativo. Diz-se o texto clássico na perfeição, ao mesmo tempo que se brinca e joga com as palavras, contaminando fertilmente o texto com linguagem que o subverte, sexualiza, “abrejeira” e liberta. Há truques e trocadilhos, sotaques daqui e acolá, “afrancesa-se” nuns lados, “aportuguesa-se” noutros. A peça carrega tanto símbolos históricos e de época (no texto, nos figurinos ou no cenário) como se deixa apeganhar por referências pop, programas televisivos, cultura popular e muita conversa de café. Cita-se uma música do Agir no meio de um sofrido diálogo sobre amor e tragédia. E tudo resulta porque nos deixa a rir, a rir muito, sem nunca ceder à piada pela piada, ao truque pelo truque. A história segue sempre, e nós com ela, mesmo que subvertida e gozada. Um jogo entre o sublime e o grotesco, que se alimentam mutuamente, até mesmo quando alguns dispositivos são tão repetidos ao longo da peça que correm o risco de perder o efeito.
A peça é longa, mas estamos sempre lá. Estamos lá, com ela, porque nos surpreende, porque é imprevisível. Na sociologia de onde venho, costumamos dizer que a realidade da vida quotidiana, onde a arte também se dá, é sempre uma realidade objetivada, isto é, ela tem uma ordenação anterior à nossa entrada em cena. A vida quotidiana tem previsibilidade e estabilidade, porque nela agimos a partir de uma ordenação anterior, que nos precede e que nos informa sobre como estar e o que esperar de determinadas situações. Essa previsibilidade levar-nos-ia a pensar, por exemplo, que uma Dama das Camélias de quase três horas a estrear uma temporada do S. Luiz, nos levaria para outro lado, seguramente mais “sério” e fiel ao original. Mas o que aconteceu foi o inverso. Desafiando as nossas expetativas, esta Dama das Camélias versão Marciel – já tinha dito que ela está extraordinária? – cumpre esse potencial quase mágico que uma obra de arte pode ter: a capacidade de desorganizar as expectativas, baralhar as ordenações, misturar-nos, deixando-nos a pensar “como raio é que esta gente se foi lembrar disto?!”
A resposta interessa menos que a pergunta. Deixar-nos surpreendidos, impressionados, desamparados, curiosos e agarrados a três horas de uma peça, num momento em que não conseguimos estar afastados mais de três minutos do telemóvel, é razão suficiente para agradecer a esta equipa de extraordinárias atrizes e atores o trabalho que fizeram. Desejo-lhes uma boa continuação.

Por defeito profissional, o João Mineiro escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

Foto © Estelle Valente

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