home Didascálias, TEATRO A Morte de Danton – TNSJ, 18/9/2019

A Morte de Danton – TNSJ, 18/9/2019

Dos fracos não reza a História. Mas qual o lugar dos fortes que a História acaba por destruir? A história dos dias da contra-revolução francesa é evocada em A Morte de Danton, encenada por Nuno Cardoso, recém investido como director artístico do Teatro Nacional São João.
A cenografia de F. Ribeiro, colaborador habitual do encenador, emula uma estrutura pesada, empedrada, com três amplas ventoinhas encimada por uma varanda/tribuna e atravessada por uma quebra que a rasga do topo ao solo, cujo simbolismo é bastante óbvio. A devoção declarada a Büchner e ao seu texto é a grande evidência de todo o evento, com efeitos nem sempre produtivos na eficácia do todo dramático e na necessária empatia que um texto desta densidade exige do público. Mas comecemos pelo alemão.
Personagem de génio precoce e espírito iluminado e combativo, Georg Büchner (1813-1837) escreveu a peça em cinco semanas, veiculando os ideais que à época o impressionavam pela voz de vultos históricos como Robespierre, Danton ou Saint-Just, pela citação e adaptação dos seus discursos históricos, para assim recriar o ambiente de doze dias do apogeu do Terror da Revolução Francesa (entre 24 de Março e 5 de Abril de 1794). Morre com 23 anos, vítima de um surto de tifo, com três obras teatrais escritas e apenas A Morte de Danton publicada em vida (em 1835, época de rígidos costumes na sua Alemanha natal), sem a felicidade de ver os seus textos representados em palco. A estreia dá-se décadas depois, a 5 de Janeiro de 1902, em Berlim.
Albano Jerónimo é Danton, uma escolha feliz. Os relatos históricos recordam o humilde advogado tornado herói como homem corajoso e de grande porte, que tomou o pulso às ruas parisienses e conduziu os destinos de largos milhares com a ilusão de dias melhores e a justiça pela guilhotina em igual medida, para em seguida se retirar para o campo, numa existência tranquila, defendendo a moderação e o regresso ao primado do Estado de Direito. Mas a Revolução prosseguiu, cega pelo poder e devoção a princípios moldados às conveniências transitórias de quem ocupava o trono manchado com o sangue dos inimigos circunstanciais. Robespierre (Nuno Nunes), outrora companheiro de armas de Danton, surge como o messias virtuoso, único capaz de chamar a si a turba maleável das ruas e aplacar iras sob os aplausos de encorajamento a novas execuções e invectivas favoráveis às suas manipulações filosóficas.

Em cena, o elenco é coeso, acolhendo quase o triplo do seu total em personagens (13 atores para 40 personagens), num corrupio constante sempre atento à integridade do enredo e da lógica evolutiva de cada personalidade. Danton/Albano Jerónimo é o único que mantém a personagem durante as duas horas e meia da representação, apoiado num desempenho desconcertante para quem desconheça a sua origem. O seu olhar vago parece perscrutar uma realidade invisível, a sua atenção voltada para uma voz que o escolheu para conversar e as suas palavras presságios constantes e sintomas de loucura e clarividência, tantas vezes na mesma fala. Delira, vagueia e, mesmo avisado por dois amigos da eminência do cárcere,recusa o destino anunciado: “Não, não ousarão” (Acto I, Cena 5.). O que poderá parecer excesso é aqui, (assim como no texto original), rezam as crónicas, fidelidade histórica. O verdadeiro Georges Danton viveu os seus últimos dias mergulhado na devassidão e no escapismo, entre álcool, mulheres e diletantismo, pelo que a constante alienação que permeia toda a sua interpretação demonstra rigor e não excesso. Saint-Just ajusta-se como uma luva ao registo intenso de Rodrigo Santos. Tétrico e virulento em cada sílaba, agarra o monólogo mais arrepiante da peça com tenacidade, tornando-o memorável. Dos companheiros de suplício de Danton, destaca-se a fisicalidade e contenção do inspirado João Melo (Camille Desmoulins). Na cena do cárcere, incapaz de aceitar a ausência da sua Lucille, dança e canta “Por Una Cabeza” em direcção à morte certa, num registo comovente e que centra em si as atenções. Uma actuação marcante e camaleónica, na sua habilidade de se (con)fundir com as suas personagens, foi a de Maria Leite. Entre a subtil leveza com que desliza como se pairasse nas escadas íngremes do austero cenário enquanto Marion, a demonstração de perícia como Baladeiro na dança (sapateado!!) e canto da cena do passeio público (transformada aqui num delírio de Danton, versão vaudeville/revista à portuguesa) ou quando, logo no início, se mistura com os “cidadãos”, sedutora e discreta, comentando a brutalidade das ruas no silêncio da sua movimentação e olhar desdenhoso, é impossível ignorar a sua presença magnética. Estranho este nome não ser mais conhecido, situação que não deve prolongar-se muito mais tempo.

Mas o verdadeiro protagonista, para o bem e para o mal, é a Palavra. A forma como o encadeamento de ideias iconoclastas, em conjunto com uma entrega apaixonada em circunstâncias limite podem, não só mudar o rumo da história de um homem e da sociedade, como o futuro de uma cultura e a força dos seus alicerces, é central nesta encenação de A Morte de Danton. A fragilidade humana e a causalidade em todo o seu temível esplendor ficam à vista de todos, assim como o desenlace sempre imprevisível do evento mais disruptivo ao nosso alcance: a Revolução, expressão política da revolta. É Büchner quem se deixa no texto, estilhaçado entre falas, sem juízos ou contemplações para com as suas personagens. Romântico avant la lettre, com todo o sentimentalismo e pungência dos extremos e sacrifícios que lhe são intrínsecos, legou à posteridade este tratado sobre a Revolução. Intemporal mas também atemporal, prende numa bolha inquebrável o ar saturado que acompanha os momentos decisivos e a impotência perante o Nada que lhe sucede. Mas será isso suficiente para que a Arte se cumpra perante os desafios do presente? Audácia e liberdade, privilegiando paralelos e coincidências com a actualidade, em detrimento do estilo e da reverência ao texto original, talvez deixassem esta Morte ao nível das vidas contadas, do Teatro Nacional que a recebeu e do elenco que a ela se dedicou. Nunca o saberemos. Fica com o Público, fundamento último da arte teatral, decidir que fazer com o que recebeu. “Cidadãos, o que queremos, afinal?”

Próximas datas:
4 Out. 19 – Theatro Circo – Braga
18 Out. 19 – Teatro Aveirense
23 Out. 19 – Cluj (Roménia)
9-19 Jan. 20 – TNDMII – Lisboa

Foto © João Tuna

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