home Antologia, LITERATURA A Pedra e o Desenho – Gonçalo M. Tavares (Relógio D´Água, 2022)

A Pedra e o Desenho – Gonçalo M. Tavares (Relógio D´Água, 2022)

Livro-homenagem a um dos grandes criativos do séc. XX/início do séc. XXI – Julião Sarmento (1948-2021) – este A Pedra e o Desenho nasce de um convite a Gonçalo M. Tavares (GMT) para escrever os textos para o catálogo de uma exposição do artista plástico em 2016. Em pouco tempo, a colaboração passou a livro, com desenhos inéditos de Sarmento a ilustrar textos de GMT. A publicação foi sendo adiada até se tornar numa “homenagem ao amigo Sarmento. Um festejo de vida.”
Os textos curtos, tal como a boa ficção, desenvolvem-se pelo atrito, o conflito de forças opostas e na sua decorrente progressão. Mas como nas artes plásticas, o início é a quebra com a rotina.

“Um traço, um único traço impõe logo dois espaços, uma fronteira (Heidegger)./O que é o momento decisivo? É o momento em que não podes adiar, tens que marcar com tinta o espaço.” (64)

Idealmente, o que avança neste livro é a percepção e a capacidade de interpretar ou, pelo menos, apreciar a Arte de forma mais aberta e atenta.

“As narrativas começam assim. O início não mostra tudo, mas anuncia o caminho. Se começas pelos sapatos, queres subir; se começas pela cabeça, queres descer.” (18)

O estilo é o costumeiro de GMT: frases curtas e incisivas, criando abstracções inclusivas dos sentidos que o leitor traga já consigo, tornando a leitura num acto necessariamente participativo para que seja integral, completo, tal como a interacção com a obra de Arte.

“A linguagem é uma forma de desenhar no espaço vazio, no ar, com mão nenhuma.” (49) Frases como pontos de partida para uma arquelogia “(…) o início de uma interminável investigação./Todas as letras deixam vestígios atrás. Ler é estar atento aos vestígios, não às letras.” (54)

A arte de Julião Sarmento aqui presente consiste sobretudo em colagens e enriquece essa dialéctica, conferindo-lhe uma concretização pictórica minimal e assertiva, um repositório da realidade oculta nas palavras, embora também ela representação. “A grande vantagem da representação é a arrumação!” (51) Colocando os dois tipos de percepção no mesmo espaço, a comparação entre contemplações e a escolha do leitor entre a passividade e a acção são estimuladas.
As frases de GMT convidam à acção, com prevalência dos verbos que sugerem movimento e da segunda pessoa do singular; no seu melhor, são interpelações confrontacionais, instando ao avanço diante do absurdo do vazio.

“Linha do horizonte = venda nos olhos./Um único traço não te deixa ver o resto.” (9)

Podem a espaços assemelhar-se a exercícios para criar espaço para a (re)flexão – “Mas toda a narrativa começa desta maneira: a maneira amputada, ou seja, promissora.” (18) – ou simplesmente para o vazio, legítimo e indispensável na escrita e na Arte:

“Se colocares espaço entre objectos e símbolos, esse espaço vazio faz de moldura ou de forma tranquila de elevar o outro (…) capacidade de nada dizer, de apenas esperar, de deixar existir.” (29)

Nem que, logo a seguir valide a ideia oposta, demonstrando como é fácil manipular-nos e levar-nos ao erro. Melhor, demonstrando que não há como errar na Literatura e na Arte. “Repara, por exemplo, no imponente nada que existe à volta da estátua mais medíocre.” (29)
A ideia de jogo está latente a vários níveis e com diversos participantes: o escritor, com as palavras e as ideias (o evidente subtexto filosófico e linguístico e o arranjo e rearranjo de vocábulos e expressões), na relação do escritor com o leitor ( pela capacidade de entreter e manipular expectativas do que deve ser o texto/livro e a seriedade de ambos, mas também sobre a construção e decurso do raciocínio/argumentação) e do escritor com o artista (afinal o objectivo do livro).
Como em qualquer livro de GMT, há um pouco de tudo para todos, desde o leitor mais informado e intelectual ao completo leigo, desinteressado pela lides literárias. Com aparente facilidade, chega aos extremos que nos são familiares, usando a linguagem como matemática na sua execução, geometria de sentidos e emoções em contextos amplos, para que, aquando da leitura, a palavra possa ser arte. Ou talvez Beleza. Liberdade.

“O belo é, portanto, uma parte daquilo que funciona. O belo é uma parte, um fragmento, daquilo que tem objectivos./Quando uma peça perde a função, pode, finalmente, dançar – dirás.”

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