home Didascálias, TEATRO Andy – TNDMII, 25/11/2021

Andy – TNDMII, 25/11/2021

Gus Van Sant, o cineasta do quotidiano e, igualmente, da percepção onírica e desfasada de Elephant, Last Days ou Paranoid Park, o também artista plástico e compositor, andava, há já cerca de 30 anos, com um projecto para uma peça de teatro no bolso. Chegou mesmo a escrever um guião que visava River Phoenix como estrela principal mas que, à morte do actor, perpetuou a sua sina de adiado.

Foi John Romão, director artístico do festival BoCA, que com o seu desafiante convite veio abrir essa caixa de Pandora que ainda mantinha a esperança de encenar uma peça de teatro, revelada a Van Sant, aos 69 anos, sob a forma de um musical. Van Sant foi pegar no projecto de uma vida o “Projecto Warhol” e escreveu, encenou e musicou Andy, uma peça que elucida os primeiros anos do percurso pessoal e artístico (período de 1959 a 1967) desse mago da Pop Art que foi Andy Warhol.

Andy abre com a entrada de Clement Greenberg (o critico de arte) na Leo Castelli´s Gallery, indo ao encontro do artista Jasper Johns. E é logo a partir dos primeiros diálogos que se evidencia, de modo demasiado explicito, o lado didáctico da peça, um aspecto que se perpetua como se de uma longa lição de História de Arte se tratasse; a dedicada à passagem do Simbolismo à Pop Art. Van Sant mostra-nos que, tal como o Expressionismo Abstracto (encabeçado por artistas como Pollock) tinha destruído todas as galerias, art dealers e mercados anteriores, marginalizando toda a cultura que existia até então, também o mundo da Pop Art e o Minimalismo passaram a fazer o mesmo, mostrando que as grandes mudanças de paradigma no mundo da Arte o reconstroem. Trata-se aqui de toda uma nova geração de americanos, um novo movimento (no qual também se expressava o movimento gay e queer) que vai transformando o significado e a prática da Arte na América e a forma como as pessoas passaram a ver o mundo à sua volta. Nova York era a cena do art world e a The Factory de Warhol teve um papel definido nessa transformação.

E é neste contexto que se compreende a preferência de Van Sant por um elenco de jovens actores para esta peça, ajudando-nos à visão desse novo paradigma que se impunha ao propor-nos usufruir da imediatez das suas interpretações (também conseguido pela ausência de densidade dramática e no que isso possa acrescentar de positivo para a compreensão do contexto da expressão artística e da persona de Warhol) onde deve destacar-se a notável e deliciosa interpretação de Helena Caldeira no papel de Edie Sedgwick.

Diogo Fernandes, o actor que interpreta Andy, consegue levar a bom porto, na medida q.b., o misto de vulnerabilidade e de observação atenta e enigmática que pautava a complexidade psicológica de Warhol. Esse Warhol, que nos é primeiro apresentado como Andrew Warhola, seu nome de baptismo, pertencendo a uma família católica da working class, aparece-nos como um rapaz receptivo e sonhador (o que é mostrado na mais bem concebida cena da peça, a da Virgem Maria) que de testemunha fascinada com o que se passava à sua volta (em parte revelado pelo seu encantamento por Truman Capote e pelo que ele representava) vai-se transformando em Andy Warhol, um agente que passa, deliberadamente, a espelhar esse mesmo mundo. Mais do que impôr a sua visão, como um espelho, reflectia e registava a vida; daí aparecer, constantemente, de câmara na mão e se ter aventurado pelo mundo do cinema underground.

A versatilidade dos cenários e da encenação (mudança constante de cenas) concorrem para impor a Andy um ritmo cinematográfico, tão familiar a Van Sant, ainda que não possa constatar-se a mesma fluidez no que à banda sonora diz respeito, soando defasada (demasiado lenta e leve) do ritmo visual da peça, sem nada a acrescentar aos diálogos e à expressão das personagens. No entanto, Andy consegue levantar questões: Como te crias? Como te transformas? Questões a que consegue dar resposta: o que quer que sejas no teu intimo, o que importa é no que te tornas. E ainda nos mostra como a Arte é um bom médium para essa catarse interior que a Pop Art também conseguiu impor.

Andy mantém-se em cena no Teatro Nacional Dona Maria II até 3 de Outubro, de onde seguirá para Roma e Amesterdão.

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FICHA TÉCNICA

texto, encenação, música e letras Gus Van Sant
tradução e legendagem Joana Frazão
com Carolina Amaral, Diogo Fernandes, Francisco Monteiro, Helena Caldeira, João Gouveia, Lucas Dutra, Martim Martins, Miguel Amorim, Valdemar Brito
colaboração artística e dramaturgia John Romão
direção musical Paulo Furtado / The Legendary Tigerman
direção vocal João Henriques
cenografia José Capela, com assistência de António Pedro Faria e imagens de José Carlos Duarte
figurinos Joyce Doret
desenho de luz Rui Monteiro
desenho de som João Neves
coreografia Sónia Baptista
assistência de encenação Teresa Coutinho

direção técnica Gi Carvalho

produção executiva Francisca Aires
produção BoCA
coprodução Teatro Nacional D. Maria II, deSingel, Festival Romaeuropa, Onassis Foundation, Kampnagel, La Comédie de Reims, Théâtre de la Cité – CDN Toulouse Occitanie, Teatro Calderón
apoios Suspenso, Teatro Thalia
M/12
duração 1h45 (aprox.)
Andy é um projeto comissionado pela BoCA Bienal de Artes Contemporâneas.
A Everis NTT DATA Portugal patrocina as apresentações do espetáculo Andy no Teatro Nacional D. Maria II

 

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