home Didascálias, TEATRO Aurora Negra – TNDMII, 3/9/2020

Aurora Negra – TNDMII, 3/9/2020

Na noite em que Aurora Negra foi anunciado como projeto vencedor da segunda edição da Bolsa Amélia Rey Colaço, um grito de alegria e uma explosão de entusiasmo percorreu o átrio do Teatro Nacional D. Maria II. Toda a gente sorria, muita gente se abraçava. Isabél Zuaa, Cleo Tavares e Nádia Yracema iam ocupar aquela casa, falar com as suas próprias vozes, sem intermediários. Pela primeira vez na história da instituição, três atrizes negras conquistavam o direito de ocupar aquele palco, com um projeto artístico da sua autoria. Nessa ocasião Isabél Zuaa disse que “estava à espera desta peça desde os anos 90”. “Estávamos à espera há décadas, há séculos”, acrescentou recentemente Tiago Rodrigues, diretor artístico do TNDMII, e com toda a razão. As três atrizes mostraram naquele palco, com orgulho, generosidade e compromisso,  que há conquistas que não podem e não vão mais ser adiadas. É tempo de uma AURORA NEGRA.
A peça começa com as atrizes a proporem uma aliança a Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, a Rainha de Portugal e dos Algarves, nascida em 1819 no Rio de Janeiro. Mas essa aliança exige um compromisso tanto ético, como político. A três atrizes sabem tudo sobre a vida e a história de D. Maria II, mas esta nada sabe sobre a história que elas vão contar. É preciso, portanto, que Maria da Glória se coloque no lugar de escuta.
Evidentemente que esse não é um lugar previsível ou expetável para quem está mais habituado a falar, do que a ouvir. É necessário contrariar as relações de privilégio, subverter as relações de poder entre quem fala e quem ouve. Por isso as três insistem: “Antes de te retraíres, de te agarrares àquilo que sempre conheceste e te foi ensinado, peço-te que ouças. […] Imagina que estás em tua casa com os teus filhos e de repente, sem que possas ripostar, mudar o curso das coisas, fazer-te ouvir, eles te são retirados sem que possas voltar a reclamá-los como teus”; “Imagina, Maria da Glória, que a tua vida não conhece outra coisa, senão a sujeição forçada”; “Imagina que deixas de ser dona do teu próprio corpo”; “Imagina que tens que lutar pelo direito de amar”. Uma pergunta ecoa e ocupa insistentemente toda a sala: “Estás a ouvir Maria da Glória?” Que é o mesmo que dizer: Estão a ouvir, todas e todos vocês, que apenas conhecem parte desta história? Conseguem imaginar uma outra vida que não a vossa? Teremos capacidade de compreender aquela história que nos contam, não a partir dos pressupostos em que fomos educados, mas a partir da própria experiência que elas relatam? Conseguiremos nós pensar a história a partir de um outro lugar que não o nosso? No fundo, estamos nós realmente disponíveis para ouvir?
O seu apelo à escuta confronta-nos com a nossa posição no mundo, mas Isabél Zuaa, Cleo Tavares e Nádia Yracema não subiram àquele palco para nos educar, muito menos para limpar as privilegiadas lágrimas que derramamos por todas as vezes que preferimos não ouvir e não querer saber. A história que vieram contar não depende da nossa boa vontade. Elas vão fazer-se ouvir, quer queiramos, quer não. E o seu aviso é claro: se aquele antigo teatro não servir para esse propósito, pois que se deite abaixo, e se construa outro de raiz.
Aurora Negra é uma peça repleta de camadas, sem nunca perder coerência e propósito. É um espetáculo tão intimista, quanto confrontacional, que tanto trata da violência, como do orgulho de quem a enfrenta. Que vive tanto de narrativas de vida brilhantemente trabalhadas, como de momentos de fuga, êxtase e libertação. Não há nada de previsível ou de expetável em Aurora Negra.
O desafio de nos convocarem a ouvir com que as três atrizes abrem o espetáculo é estruturante de toda a narrativa. Em seguida, começam a desvendar uma outra história, ausente dos palcos, dos livros e da televisão, que começa com a presença negra no território que hoje é Portugal, ainda no século XII, isto embora nos manuais escolares as pessoas negras apenas sejam representadas como escravas, semelhantes a mercadoria, desprovidas de história, biografia, agência e cultura.
É triste, mas ao mesmo tempo sintomático, que tão tardiamente esta história chegue a um Teatro Nacional. Portugal fez uma revolução que pôs fim a uma ditadura de 48 anos. Essa revolução não foi feita apesar das guerras de libertação africanas, mas também por causa delas. Se em 1974 o país derrotou o fascismo, foi porque os movimentos de libertação nacional em Angola, Cabo Verde, Guiné, São Tomé, e Moçambique desafiaram a ordem colonial que o sustentava. Essa herança nunca foi reconhecida, com consequências políticas e culturais até aos dias de hoje.
O Portugal saído da revolução democratizou-se, desenvolveu-se, mas nunca verdadeiramente se descolonizou, um D dos desígnios da Revolução que se perdeu. O passado colonial não foi discutido e a narrativa do Estado Novo nunca foi questionada. Isto significa que a história que Portugal conta sobre si continua a ser a mesma que era contada pelo fascismo: o elogio acrítico da expansão marítima, a excecionalidade do colonialismo português, o desígnio humanista da presença portuguesa em África. É isto que se continua a ensinar nas nossas escolas, fazendo tábua rasa sobre a escravatura, o trabalho forçado, os massacres e o extermínio cultural.
A persistência dessa narrativa conduziu à invisibilidade das pessoas negras e afrodescendentes no Portugal democrático. A mesma democracia que só foi possível graças aos movimentos de libertação africanos, enclausurou os seus filhos e netos em guetos, e nunca quis discutir porque é que em Portugal as pessoas negras são sempre vistas como não sendo de cá, quase representadas como uma ameaça.
Aurora Negra conta uma parte da história que a democracia portuguesa tem ocultado. Para o fazer, as três atrizes não precisaram de ir muito longe: bastou darem voz às suas próprias mães, à sua própria história. É através delas que conhecemos o trabalho invisível de quem sai de casa ainda o sol não nasceu, e chega a casa já o sol se pôs. A história de quem percorria dezenas de quilómetros a pé, entre a casa e os vários trabalhos, porque o dinheiro mal dava para sobreviver. A história de quem, à saída do aeroporto em busca de uma vida melhor, é tratado como invasor, ou até como potencial traficante de crianças. O que ali nos contam é a história de um país que se “modernizou” à custa dos corpos suados e esgotados, que continuam invisíveis para a maioria.

Aurora Negra

🔴 Estreia hoje, na Sala Estúdio! 'Aurora Negra', o espetáculo que fala crioulo, tchokwe e português na voz de Cleo Tavares, Isabél Zuaa e Nádia Yracema. Em cena, três corpos, três mulheres que buscam as raízes mais profundas e originais das suas culturas, celebrando o seu legado e contrariando a invisibilidade a que os corpos negros estão sujeitos nas artes performativas.Para assistir até 13 de setembro.

Posted by Teatro Nacional D. Maria II on Thursday, September 3, 2020

Mas esta história que nos contam, e isto é muito importante, nunca é representada sem que a ela seja contraposta uma outra narrativa: a de quem, apesar tudo isto, continua a ter orgulho, a semear sonhos, a dançar, a partilhar e a construir. Temos sempre em cena, lembrando Conceição Evaristo, a vida da gente que combinou não morrer. Apesar de cinco séculos de violência e invisibilidade, ainda aqui estão, orgulhosas do seu corpo, da sua ancestralidade, da sua família, da sua luta, do seu prazer e da sua felicidade. Os seus corpos são a revolução. Aurora Negra vem de um lugar de orgulho, de um lugar de construção. Aurora Negra é um devir.
Voltamos à pergunta que percorre a peça. Estaremos nós disponíveis para ouvir? Para sermos aliados de um outro futuro? Isabél Zuaa, Cleo Tavares e Nádia Yracema fazem-nos um teste decisivo, e não têm receio da força do murro que vão dar ao público que as ouve. A certa altura simula-se uma entrevista de trabalho, com a voz de uma entrevistadora [Inês Vaz] que vai vomitando um chorrilho de estereótipos e preconceitos sobre os seus corpos e a sua identidade “exótica”. O público vai rindo, rindo muito, perante o ridículo da entrevistadora. Mas a cena prolonga-se, estende-se, parece que não vai acabar nunca. Ao mesmo tempo, as três atrizes vão mudando as suas caras, os seus corpos, tornando-se cada vez mais visível o seu desconforto e a sua raiva. Os risos divertidos do público, que tratou a cena como se ela fosse apenas humor, vão dando lugar a um silêncio comprometedor e desconfortável. Porque riamos nós daquela violência? Nesse momento, uma pergunta latente assombra todo o público: Estaremos nós verdadeiramente a ouvir?
Talvez Isabél Zuaa, Cleo Tavares e Nádia Yracema nos perdoem novo deslize, mesmo que não haja nelas qualquer sinal de condescendência. Todas e todos nós temos de ser responsabilizados, porque o nosso silêncio tem sido cúmplice e parte do problema. Estar à altura da aliança que nos propõem exige um compromisso inequívoco da nossa parte: falar menos, e ouvir mais. Saber escutar verdadeiramente.
A Aurora Negra chegou e a sua história não mais será adiada. O “black out” vai dar origem ao “black in”. A casa é delas, esta e todas as outras que falta ocupar. À Isabél Zuaa, à Cleo Tavares e à Nádia Yracema o meu muito obrigado por nos convocarem para este encontro, por nos proporem esta aliança e por nos convidarem para um outro futuro. Esperemos, desta vez, estar à altura da vossa generosidade.

Por defeito profissional, o João Mineiro escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

Foto © Felipe Drehmer

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