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Erasmo de Roterdão - Stefan Zweig (Assírio & Alvim) - INTRO
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Erasmo de Roterdão – Stefan Zweig (Assírio & Alvim)

Entre os escritores que obtiveram um renome internacional – e perdurável no tempo –, Stefan Zweig, autor deste Triunfo e Tragédia de Erasmo de Roterdão, reeditado em 2020 pela Assírio & Alvim, talvez seja um dos casos mais curiosos. Herdeiro daquela brilhante cultura centro-europeia que deu, diversamente, figuras tão estelares e díspares quanto Kafka, Musil, ou Broch, Stefan Zweig parece pertencer a outro quadrante do génio criador. Um de tom menor e, porventura, de um alcance mais restrito, como secreto, ou à espera de leitor mais curioso do que aquele apenas cativado pela fulgurante explosão dos autores máximos do panteão da cultura ocidental. Sem que a sua grandeza seja com isso questionável, a via percorrida pelo autor parece ter sido peculiar e determinada de forma assaz pessoal. A sua genialidade elegeu as narrativas não propriamente insólitas, perturbadoras à maneira de um Kafka, mas tocadas, por via de regra, por certa estranheza de género muito mais subtil, insidioso, oculta, quase; e à brutalidade incandescente do checo, oporia uma serenidade quase clássica, medida por diapasão sóbrio e coeso, sem a fascinante disrupção kafkiana – ainda que nunca fossem desprovidas de encantos e fascínios as realizações de Zweig.
Em sinal contrário aos colossais painéis narrativos de Hermann Broch, ou Robert Musil, Stefan Zweig circunscreveu-se, em vastas zonas da sua produção escrita, aos registos mais breves: a novela, o pequeno romance, o conto – no privilégio das paragens exóticas, ou da pequena, ou muito pequena, intriga doméstica, ou quotidiana –; mas espraiou-se para a monografia, o estudo, aquilo que hoje, sem muito poder imaginativo, chamaríamos não-ficção. E, ao contrário de qualquer um dos seus congéneres civilizacionais, Stefan Zweig encontrou no género biográfico um dos veículos mais adequados para a activação dos seus poderes artísticos. Foi, realmente, nas brilhantes biografias por si escritas que Zweig alcançou alguns dos cumes de maior relevância na vasta bibliografia que assinou. Merecem especial menção O Combate com o Demónio – Hölderlin, Kleist e Nietzsche (Antígona, 2004, trad. José M. Justo), ou o mais recente Montaigne (Assírio & Alvim, 2017, trad. Maria Elsa Neves e Maria José Diniz [dupla de tradutoras responsável por este Erasmo]).
Entre nós, Stefan Zweig gozou durante longos anos de um prestígio e uma fortuna editorial sobremaneira invulgares. Quase não há, ou não havia, casa onde livros tivessem entrado que não tivesse o seu Zweig, ou mesmo estantes corridas deles, nas inevitáveis edições da Livraria Civilização. Mais recentemente, novas edições e, em alguns casos, novas traduções, vieram dar nova vida a um autor que se arriscava a ser outro dos caídos no esquecimento, ou no lote dos descontinuados. Também no estudo biográfico as editoras portuguesas têm feito algumas apostas.
As biografias de Zweig são obras de apelo invulgar. Pela sua mistura de informação erudita, elegância e sabedoria narrativa e artística, tornam-se únicos entre os exemplares mais apreciáveis do género. Triunfo e Tragédia de Erasmo de Roterdão encaixa-se perfeitamente nessa descrição. Trata-se de um estudo relativamente breve, mas que é capaz, com enorme brilhantismo, de produzir um retrato fiel, complexo e matizado, de uma figura basilar da civilização ocidental e que não era isenta de contradições, notáveis zonas de sombra, profundas imperfeições e não menos impressivas grandezas. O quadro pintado por Zweig é – como o retrato pintado a Cromwell, que se tornaria proverbial, na língua inglesa – «com verrugas e com tudo». Assim mesmo: Stefan Zweig descreve o seu objecto de estudo, não desapaixonadamente, mas sem maquilhar as suas máculas, nem disfarçar os seus variados defeitos – «Mas Erasmo – nunca a sua lamentável cobardia se mostrou como nessa angustiante prova – não deixa entrar na sua casa o proscrito.» (p.118) Porquê, então, poderia contrapor-se, historiar a vida de tão imprestável tratante? Porque este é apenas um exemplo da disciplina que Stefan Zweig se impõe. A biografia, no autor de Amok, é um género literário, porque vão nela todo o seu investimento autoral, as qualidades e determinação do artista consumado, mas também um compromisso de outra ordem. Este, poderíamos entendê-lo como pertença da esfera ética, ou mesmo política, porque Stefan Zweig tinha do historiador, que não era, a tenacidade organizativa e estudiosa de quem sistematizava e lutava para ser abrangente. Nesta biografia de Erasmo de Roterdão, o sábio, erudito, o homem de fé e o trabalhador incansável, convergem, segmentos indivisíveis de um mesmo homem. Acima de tudo terá interessado ao biógrafo registar a vida de quem considerava «grande esquecido» pelo seu (de Zweig) tempo, salvaguardar a memória de alguém que assim descreveu: «de todos os escritores e criadores ocidentais, o primeiro consciente de ser europeu, o primeiro “combatente pacifista”, o defensor mais eloquente do ideal humanitário, social e espiritual».

Erasmo de Roterdão foi na fórmula de Zweig, concisamente brilhante, «o mais antifanático de todos» (p.15). A sua vida atravessou uma paisagem em profunda mutação, a da Europa que vivia a transição do mundo medievo para a modernidade a que o Renascimento e o Humanismo viriam a dar uma face reconhecível – e as mais luminosas realizações do espírito humano. Zweig vai mesmo a ponto de considerar o tempo de Erasmo o mais marcante de sempre, só comparável ao seu próprio, ou seja, o período de Entre Guerras e, sobretudo da Segunda Grande Guerra. Erasmo ainda viveu o prologamento do medievo tardio.
A sua vida de estudante pobre, o seu percurso religioso – descritos por Zweig com primores de estilista e com a acuidade de uma excelente reconstituição histórica – decorreram em ambiente e numa cosmovisão de carácter medieval. Mas o sábio humanista e reformador – o único no quadro histórico da Reforma, segundo Stefan Zweig, que o opunha aos revolucionários e rebeldes do seu tempo – viveu no mundo que preparava o nosso, tempo de mudança, de abalos temíveis no mais sólido edifício do engenho humano: a Igreja. Com ele, é a própria noção de humanidade que se altera, a mesma que já sofria a mais longa e perene metamorfose, desde os alvores do Renascimento, em Itália. Erasmo é um actor decisivo, mas dúbio, oculto, perpetuamente em curva e contracurva, por evitar sempre as linhas rectas e as acelerações. Inimigo no não decisivo, mas também no sim inequívoco.
Ele manteve o seu percurso solitário, tenacioso, de uma individualidade por vezes altiva e não poucas vezes injusta. Erasmo lutou pela fé cristã, mas, porventura, tanto por si quanto pelo lastro global do humano. Como diz Zweig ele é, no seu íntimo, um artista – do «artista que nele existe» (p.31) fala Zweig – e, como tal, possui a alma animosa e intempestiva de um criador. Ele é o seu próprio projecto. Um batalhador oposto à guerra, ao conflito e ao mal, um defensor pacífico da harmonia das nações, um reformador pleno, conforme defende o seu biógrafo.
Triunfo e Tragédia de Erasmo de Roterdão é, como todas as biografias de Stefan Zweig, um trabalho de arte, um esforço do pensamento e de uma sólida reconstrução histórica – um feito literário tão proveitoso como qualquer uma das suas obras romanescas.

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