home Antologia, LITERATURA Fernanda – Ernesto Sampaio (Vasco Santos Editor, 2021)

Fernanda – Ernesto Sampaio (Vasco Santos Editor, 2021)

Nada pior que um livro sobre a dor da perda nesta altura, pensarão vocês. Como tudo, depende da perspectiva. As obras intemporais são aquelas em que encontramos a empatia distante de quem escreveu sem público, com o espanto do reconhecimento da nossa intimidade mais inconfessada em palavras alheias. Fernanda é um desses peixes raros no oceano de banalidades expelidas às centenas pelo mercado literário, neste ano de má memória que agora finda.
Livro curto, porém impossível de ler de uma assentada, tal a sua intensidade, descreve o processo doloroso do luto de Ernesto Sampaio após a morte repentina de Fernanda Alves, companheira de quatro décadas, actriz memorável e marcante das artes portuguesas. Com desassombro e prosa poética, Sampaio escava fundo e recolhe com cuidado de ourives os escombros de uma vida, imerso no desalento e desesperança. Recusando a negação ou o refúgio em fantasias e factos, como Joan Didion por exemplo, abraça o negrume do vazio como Paul Simon em “Sound of Silence” e, em textos curtos e imensos no alcance, partilha a sua casa destruída, entre memórias de felicidade e o peso dos dias.
“Para se viver no presente (…) é preciso esquecer. (…) Mas quando a memória nos cai em cima como um dilúvio (…) estamos perdidos. (…) Vivemos no inferno, pois inferno é a ausência de quem amamos./ É disso que este livro trata. Disso e da passagem da saudade à solidão.”
Lido o livro, o impulso é o contrário. Olhar em volta para o que nos prende à vida, lhe confere sentido. Buscar a poesia nos pequenos gestos e palavras, porque o final é sempre o mesmo e o presente perene. Pela escrita, Ernesto Sampaio procura a salvação possível, o alívio momentâneo, talvez o resgate de Fernanda ao esquecimento.
“Tal como a escrita demonstra que o presente só pode existir em fuga perpétua, também a morte impõe à escrita a obrigação de procurar um presente diferente do seu (…) representando o «passo além» que, semelhante à transgressão, é absoluto, independente de quaisquer limites.” Tal como a escrita, também a leitura que lhe sucede. Como acto de libertação do contingente e, cada vez mais, acto transgressivo face à máquina devoradora da gratificação imediata e da atenção difusa. Acto de reencontro com o essencial e indizível. “Tudo isto tem a ver com o tempo, com o desastre que é o nosso modo de lidar com ele, com forma inconsciente e cega como o usamos.”
Fernanda é uma despedida. Duas aliás. Mas também um hino inesquecível ao Amor incondicional e à Vida. “Uma vida está acabada quando já não se pode melhorá-la…”, mas até à morte é sempre possível. Vivamos. Se possível com estes livros para facilitar a viagem.

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