home Didascálias, TEATRO Ivone, a Princesa de Borgonha – Teatro do Bairro, 6/4/2018 

Ivone, a Princesa de Borgonha – Teatro do Bairro, 6/4/2018 

Ivone, Princesa de Borgonha é uma adaptação do texto do autor polaco Witold Gombrowicz, traduzido por Luísa Costa Gomes. Um príncipe entediado com a beleza, o galanteio e a facilidade da conquista, diverte-se com um camafeu, uma mulher aberração, que se torna um desafio. O fascínio da troça, da incapacidade de penetrar naquela mulher, que prima pelo silêncio, pela absoluta indiferença às convenções sociais e, mais ainda, refuta as vénias da realeza, transforma-se num jogo perverso em que Ivone, e as palavras que não diz, é a indefinição feita gente. É este exercício de provocação permanente que o Teatro do Bairro nos propõe.

Os criados riem, a realeza indigna-se e Ivone desconcerta libertando, aos poucos, toda a contradição que guardam dentro de quatro paredes, a recordação das traições, dos prazeres inexplicáveis, dos crimes, das fantasias inconfessáveis guardadas num caderno de poesia delicodoce de fazer corar uma criança de embaraço, tamanha a desdenhosa lamechice.

A mãe do príncipe é representada pela incontornável Maria João Luís, interpretação onde todas as subtilezas e todos os exageros têm a dimensão certa. Nada a fazer quando a técnica e o talento se encontram. Também o pai do príncipe (João Barbosa) nos arranca gargalhadas e, dominando os tempos de comédia, tece a teia que nos captura, onde também Ivone, do quase nada, faz muito.

cartaz Sic Notícias

Hoje é noite de ESTREIA no Teatro do BairroIVONE,PRINCESA DE BORGONHA de Witold Gombrowicz

Posted by Teatro do Bairro on Wednesday, March 21, 2018

Se do texto provocatório do autor polaco (nascido no início do século XX anti-comunista, censurado, enfant terrible das letras, cujo percurso se aconselha investigar e que afirma “as minhas obras fazem tudo para agradar, sou circo, lirismo, poesia, horror, confusão, rixa, jogo, o que é que querem mais?”) só podemos dizer que é embriagante, das interpretações teremos que dizer apenas mais duas palavras: Marcello Urgeghe. Após o espetáculo, não se falava de outro ator, e durante o espetáculo, um bom par de “Uis” e “Ais” consecutivos mostraram-nos que interjeições, com as pausas e as entoações certas, são muito mais que o suficiente para capitularmos. Interpretação exímia.

Por tudo isto, aguarda-se a reposição Ivone, a Princesa de Borgonha. O Teatro do Bairro merece a visita e o espetáculo merece ser visto.

A peça está em cena até 22 de Abril, agora no Teatro Nacional São João.

Por defeito profissional, Joana Neto escreve de acordo com o desacordo ortográfico.

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