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Lindos Dias! – Teatro do Bolhão, 9/2/2019

Apesar da impressão de longo decurso, os sonhos, assim nos diz a ciência, duram apenas escassos minutos. Uma dezena deles, no máximo. E, no entanto, podemos sofrer a ilusão de sonhar uma noite inteira, e não será raro que nos suceda esse engano. Também nesta Lindos Dias! de Samuel Beckett, o tempo é um produto da ilusão. Saberemos nós o quadrante em que poderíamos localizar estas sequências? Como em A Última Gravação, toda a peça se poderia passar «muito tarde, no futuro», ou em qualquer passado indefinido. Sem mais. Porque mais não saberemos. Porque não importa para o esfacelamento de tudo, que está à nossa vista nesta obra (como em tantas outras do irlandês).

A didascália inicial, na excelente tradução assinada pelo poeta e músico João Paulo Esteves da Silva, dá-nos conta de uma «Superfície de erva queimada com um montículo no centro.» A inteligente encenação de Sandra Faleiro converte o montículo num engenhoso jogo de panos, tecidos que simulam, pela cor e pelo arranjo, a elevação de terra em que Winnie (Cucha Carvalheiro) se encontra quase totalmente coberta. O seu companheiro, Willie (Luís Madureira), de costas para o público, quase não é visível. Condição simbolicamente significativa das suas réplicas minimalistas, monossílabos ou pouco mais, perante a verborreia feérica, num fundo escondido de desespero, de Winnie. O quadro em que Willie tenta alcançar a companheira, escalando aquele insignificante acidente geográfico que retém Winnie, é um dos momentos mais pungentes na sintetização da distância que tão fundamente separa duas pessoas que vivem lado a lado. Winnie e Willie lembram o paradoxo da tartaruga e de Aquiles. Também Winnie é incapaz de chegar até Willie, porque quando se prepara para o alcançar, já ele segue num ponto à frente. Mas aqui o paradoxo é duplo, porque estes atletas não saem do mesmo lugar, embora façam a sua corrida. É sobretudo Winnie quem mais se distende, mas prossegue sempre às arrecuas, vivendo e revivendo, revolvendo as areias do passado. É como se também ela escavasse num outro monte, o do passado, em busca desesperada por um sentido. Que não há. Que nunca pode haver. «Os versos maravilhosos», que passarão a «inequecíveis», são, pelo contrário, o que Winnie nunca poderá reaver, ou sequer lembrar com exactidão, e é o tempo passado. O seu presente, o seu e o de Willie, é um vazio, um monturo onde habitam, com vestígios de si e de tudo, com vagos gestos que, mais e mais, se mecanizam com o passar do tempo.

A contracena é impecável entre Winnie e Willie. Cucha Carvalheiro e Luís Madureira constituem a imagem perfeita de um esboroar que se dá diante dos olhos do espectador. Ou que se deu desde sempre? Os dois são um eco enganador um do outro, desde os nomes quase iguais – mas não bem. É logo nessa partícula diferenciadora que começa a agir o veneno da desagregação. Os seus nomes são quase iguais, como é partilhada entre eles a decadência em que vivem – Cucha Carvalheiro é exímia a esticar a corda da miséria que se rodeia de pequeníssimos luxos, inverosímeis e caducos. Gémeos falsos, irreconciliáveis, Winnie e Willie são um acorde que não deixa o seu soar alucinatório, até à dissolução final. Conversa de loucos de impossível decifração, e que não se poderá conduzir a bom termo. Secundados por um pano de fundo que simula, ilude, também, o espaço que acolhe, por excelência, a cena – ou seja, o teatro –, os dois actores, as duas personagens, são a actualização permanente da ruína que os acolhe e define. As indicações iniciais de cena bem o definem: «Máximo de simplicidade e simetria.» Eles são todo o mundo. Everyman da perturbação, de um transe prolongado ad infinitum, como se tudo à sua volta tivesse sucumbido, num possível pós-apocalipse (não sabemos, ao certo, se os vizinhos que o casal avista são presenças concretas, ou memórias, projecções), e só eles restassem sem saberem até quando. Ou apenas os restos de um Apocalipse pessoal, demasiado pessoal. O casal encarna o paradoxo da vida a dois. Impossível unidade, cisão do eu, abdicação de tudo, a luta e o namoro com o mundo. Cucha Carvalheiro e Luís Madureira são toda vida despida do que não é essencial. São o osso de tudo – e são-no admiravelmente nesta encenação. Winnie tem consigo, na mala que não abandona, tudo aquilo de que precisa, como os óculos, mas também aquilo que a exclui: «Olha o meu espelho, não precisa de mim.» Winnie é excedentária da vida, que decorre sempre na sua ausência. Willie mais não tem consigo do que um jornal, suspeitamos, lido até à náusea. Na cena, Luís Madureira folheia um jornal que, de tão delido, parece papel vegetal, translúcido, quebradiço, prestes a deixar de ser. Imagem viva (morta?) da acção indelével do tempo. Cucha Carvalheiro mune-se, com aplicação, de uma lupa, para ler as letras miudinhas numa embalagem de dentífrico, a muito custo decifrada; cata da mala pinturas de rosto, colhe pequenos artefactos de adornamento que cada vez mais agudizam a sua decadência colorida e desalinhada. A química do casal é perfeita. Perfeita a traduzir o caos inevitável em que vivem duas pessoas para as quais tudo morreu. Mesmo elas.

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