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Na América, Disse Jonathan - Gonçalo M. Tavares (Relógio d´Água, 2019) - INTRO
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Na América, Disse Jonathan – Gonçalo M. Tavares (Relógio d´Água, 2019)

Na América, Disse Jonathan nasce de um convite da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento Gonçalo M. Tavares (GMT) para uma viagem nos E.U.A.. Parte acompanhado apenas de três pequenas aguarelas com retratos de Kafka, Garcia Lorca e Patti Smith, mas é Kafka (juntamente com uma personagem misteriosa chamada Jonathan) quem lhe faz companhia e serve de filtro a tudo o que vê (e escreve), como um coador das cores da realidade. À medida que se desloca, GMT mede diversas variáveis do seu contexto físico e emocional, colocando hipóteses e questões, na sua já habitual deriva de precisão e absurdo, intercalados conforme as conveniências do momento e servidos por uma escrita sem mácula. As pré-concepções de género literário vão sendo desafiadas, entre o humor, o negrume e a ironia, como Kafka talvez fizesse, perante esta dispersão de sentidos e contradições que é a América.

“Projecto Kafka: levar a sua imagem em viagem. (…) Acreditar numa magia contemporânea a interagir na relação entre imagem e presença. Como bem nos mostra a tecnologia recente, imagem é presença. (…) alterar a paisagem pela presença fantasma de Kafka (…) um especialista introdutor de estranheza.”

O outro companheiro de viagem é Jonathan, um “amigo” mais extrovertido, desafiador e verborreico, mais um espectro para juntar à conversa. “Jonathan não pára de falar, mas há uma surdez em mim que por vezes me faz pensar se Jonathan existe mesmo ou simplesmente vim sozinho aos Estados Unidos com a imagem de Kafka”. Funciona como oposto, personifica e verbaliza as teorias e pequenas parábolas formuladas por GMT, centrando-as e conferindo um cariz de ilusão dialógica mais interessante ao todo ficcional. Mas findo o livro, sentimos falta destas hipóteses, por vezes aforismos, quase oráculos, pequenas discrepâncias e estranhezas expostas na sua contradição radical com o senso comum e os valores da humanidade. Passamos do desconforto ao riso na mesma frase, pelo que também nós nos “movemos” embora estáticos, como o Kafka colocado nas fotos monocromáticas espalhadas pelo livro.

A América não é só um Mundo a que somos alheios. É “o” Mundo, de onde GMT parte para as suas diatribes na corda bamba entre o sentido e a abstração. Lê-lo é confrontar essa deriva dirigida à obscuridade das palavras, à primeira vista tratadas de forma displicente, numa manipulação persistente, que nos empurra sem maneiras, aponta com o dedo em riste e pressiona, nunca clarificando seja o que for. É texto além-palavra, bastando-se apenas com esta, num enigma insolúvel, de sentido dependente de quem o perscruta: pelo que é ou pelo que queremos que seja. Talvez seja isso que esperamos da verdadeira literatura. Mas afinal o que é a Verdade? É individual, colectiva, universal? GMT apresenta a sua, com a ajuda preciosa de Charles Simic: “Por vezes sinto isso, que está escuro de mais, e que por isso o fim do mundo deve estar próximo. Há qualquer coisa de muito terrível nas imagens mais abertas em que o rosto de Kafka está para ali perdido (…) Uma sensação de desamparo, um pedido de socorro que é também uma acusação. (…) Ele está a olhar para mim (…) e parece realmente (…) estar a pedir algo. Mas o quê?” Soa-vos familiar?

Em conclusão, Na América é um estudo sobre a influência da presença sobre a imagem, ou num sentido mais amplo, sobre a (nossa) existência mediada, hoje regra e não excepção. Mas será mesmo apenas isto? Kafka riria, e com modos delicados, pedir-nos-ia o livro acabado de ler para o rasgar ante o nosso espanto, com um simples “Outros virão. Não somos assim tão importantes.”

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