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O Infinito num Junco – Irene Vallejo (Bertrand, 2020)

O Infinito num Junco de Irene Vallejo é um arrebatado elogio do livro. Sob a forma aparente (mas não real) de uma história do livro, O Infinito num Junco prescinde, desde o início, de um método excessivamente rígido. A essa fixidez contrapõe a autora espanhola uma liberdade e um ímpeto que empolgam por contaminação. Não se trata, por conseguinte, de um memorial ordeiro, cronológico ou temático, mas de um hino à própria ideia de liberdade. A mesma que a classicista espanhola associa, de forma indelével, ao livro.
O junco do título está na origem do que viria a ser o livro; no entanto, essa é apenas a brilhante metáfora que assinala o arranque de uma vasta jornada que leva Vallejo dos alvores da escrita até à actualidade. Ou seja, para chegar aos dias de hoje, em que se discute a pertinência do livro em papel, Vallejo retrocede a esses esses momentos inaugurais, obviamente ilocalizáveis com exactidão no tempo, em que, lentamente, a palavra escrita começa a «procurar» o conjunto, a recolha do que era, por natureza, disperso – e que virá a originar os antepassados remotos do livro. Como não poderia deixar de ser, a autora confronta-se com o actual primado do virtual. Mas, quando chega o choque de paradigmas – que não chega a sê-lo –, Irene Vallejo não se amedontra. Isto é, não oculta os factos, nem rapa da proverbial peneira para, em vão, tentar tapar um sol demasiado ofuscante para se ignorar. A tecnologia, no sentido corrente do termo, está lado a lado com o livro, e não há nada a fazer. Uma das (incontáveis) provas de que este é um livro extraordinário é a sua forma corajosa, sincera e pragmática de equacionar as questões:

«Até à invenção da imprensa, os livros eram objectos artesanais, ou seja, de laborioso fabrico, únicos e incontroláveis. Copiados um a um, por encomenda, muitas vezes na própria casa do leitor pelos seus escravos privados, que ordem podia deter a sua difusão?
Os livros electrónicos de hoje são a antítese daqueles antigos manuscritos: objectos baratos, etéreos, sem peso, fáceis de multiplicar até ao infinito, placidamente albergados em servidores e unidades de armazenamento em centros de dados por todo o mundo; mas estritamente controlados. Em 2009, numa disparatada tentativa de censura, a Amazon apagou sigilosamente dos Kindles dos seus clientes o romance 1984, de George Orwell, alegando um suposto conflito de direitos de autor. Milhares de leitores denunciaram que o livro desapareceu de repente dos seus dispositivos, sem aviso prévio. Um estudante de Detroit que estava a fazer um trabalho académico protestou porque, juntamente com o arquivo, desapareceram todas as suas anotações de leitura. Não sabemos se a Amazon tinha consciência do simbolismo literário implícito. Em 1984, os censores governamentais apagam todo o rasto da literatura incómoda para o Big Brother lançando-a para uma incineradora à qual chamam “o buraco da memória”.» (p.357)

Uma longa citação (uma das várias que este livro parece exigir) que nos mostra, sem dúvida, que não existe aqui o habitual ressentimento & ansiedade que tão habituais se mostram, quando o debate, ou a aparência dele, se desenha, sequer, no horizonte das actividades literatas. A atitude de Irene Vallejo está nos antípodas da pedinchice chorona que pede, por favor, leiam um livrinho. Não é nada disso que aqui se passa. O comportamenteo desta autora é, bem ao contrário dessa pieguice deplorável (mas habitual), um de permanente desafio e altiva elegância. Quem quiser, e tiver energia, que a acompanhe. Quem não tiver forças, que leia em Excel, ou uma historinha descartável. Aliás, a autora não perde tempo com meias palavras; é clara como só os clássicos (quando bem lidos e conhecidos, com árduo labor): «O alfabeto foi uma tecnologia ainda mais revolucionária do que a Internet. Construiu pela primeira vez essa memória comum, expandida e ao alcance de toda a gente.» (p.125) O terreno desta filóloga clássica é a arena dura e exigente dos clássicos, mas este livro nunca deixa de ser um apelo conhecedor e sábio da contemporaneidade. Basta pensar (e é um exemplo colhido quase ao acaso) que a autora salta (deve ser o melhor termo) do Fédon para Lovecraft, sem se desequilibrar, e nem um arranhão notamos na impecável maneira como a autora faz essa torção no tempo, no modo e na forma (é ver a página 215). Não muito longe, Irene Vallejo dobra a parada. Porque embora o seu arremesso seja muito mais breve, não é menos admirável por isso, ao avançar no tempo desde o Ulisses até à década de 2010. E o que une as duas épocas? A barbárie. A mesma que está na origem da destruição pelo fogo da obra magna de Joyce e de exemplares do Alcorão (e não «Corão», como se lê nesta edição; se é possível desculpar três rimas infelizes), numa «pequena igreja cristã da Florida» (p.219).
Por conseguinte, e talvez contrariando o que alguns pudessem pensar, um classicista não é necessariamente alguém que se fecha no seu casulo greco-romano. Se tivermos sorte, e aqui temos, um estudioso dos clássicos é, antes de mais, uma pessoa que está mais bem preparada (e não «melhor preparada», já agora) do que muitos (ou todos?) para entender o aqui e agora, ou, como se diria na língua da «basezinha», o hic et nunc. Porque, aquele que entendeu e estuda a matriz, não tem como deixar de estar equipado para captar as suas variações. E isso inclui o presente momento, o actual segundo que acaba de se escoar. E, já agora, como descreve um clássico uma autora que tão bem conhece essa noção? Da maneira mais simples e bela, arriscar-se-ia:

«os clássicos não são livros isolados, mas sim mapas e constelações (…). Graças a eles descobrimos origens, relações, dependências. Escondem-se nas dobras uns dos outros: Homero faz parte da genética de Joyce e de Eugenides; o mito platónico da caverna regressa em Alice no País das Maravilhas e em Matrix; o doutor Frankenstein de Mary Shelley foi imaginado como um moderno Prometeu; o velho Édipo reencarna no desgraçado rei Lear; o conto de Eros e Psique, em A Bela e o Monstro; Heraclito em Borges; Safo em Leopardi; Gilgamesh no Super-Homem; Luciano em Cervantes e na Guerra das Estrelas; Séneca em Montaigne; as Metamorfoses de Ovídio no Orlando, de Virginia Woolf; Lucrécio em Giordano Bruno e Marx» (p.369)

Não custa nada chamar a O Infinito num Junco um livro excepcional. Porque ele podia ser uma história do livro, mas não é; e porque era possível tê-lo transformado numa história da cultura, sem que isso tenha (felizmente) acontecido. Será legítimo perguntar porquê. A sua falta de um plano castrador – responda-se, sem temer palavras arrepiantes, que lembram certo deus malogrado –, a liberdade com que a autora voga de um tema, ou de um pormenor, a outro, ou o modo como se mantém num mesmo plano sem deixar de ter uma visão transversal e abrangente – tudo isso faz deste livro um lugar muito mais desarrumado, mas infinitamente mais fascinante, do que uma história seja do que for. Quando muito, esta será a história da liberdade e da iluminação pelo conhecimento. Não se trata de excesso de optimismo, mas apenas do que poderia ser. Os livros poderiam ajudar à maior lucidez da humanidade. Lá porque é inverosímil que tal suceda, nada impede uma pessoa brilhante, e claramente dotada, como Irene Vallejo, de fazer uma tentativa (especialmente luminosa, acrescente-se). Como dizia alguém que Vallejo não se importaria de ver citado a seu respeito: «Deve preferir-se o impossível verosímil ao possível inverosímil» (Aristóteles, Poética, pref. Maria Helena da Rocha Pereira; trad. e notas Ana Maria Valente, Fundação Calouste Gulbenkian, 2018).

Esta obra, que é abrangente, vasta, parece o contrário de um compêndio. O seu avanço é mais pulsional do que ordenado de forma obediente. É altamente pessoal, porque a autora é uma espécie de narradora omnisciente; mas nada disto se passa «como num romance», porque, nada de exageros, nem deturpações: é de pensamento, de reflexão, e de não-ficção que se trata. Ainda que os dons de Irene Vallejo sejam, ironicamente – ou sem ponta de ironia –, sejam os de uma escritora: «O historiador Tácito apalpou as cicatrizes da amputação e atreveu-se a nomeá-las.» (p.354). A quem achar a imagem tétrica, talvez falte ler Tácito. Se espera uma tradução portuguesa, leitor, a não ser que se contente com o (maravilhoso) A Germânia (Nova Vega, 2011), tem pouco para escolher, eufemismo para dizer que nada mais lhe resta; mas quem estiver à vontade noutras línguas, tem um festim à sua espera. Também este recurso, pouco imaginativo, de interpelar, fantasiosamente, um leitor que tivesse chegado até aqui, é o que se chama um tópos clássico. Irene Vallejo, como é óbvio, procede com muito mais saber, e incomparável elegância:

«Falemos por um momento de si, que lê estas linhas. Neste momento, com o livro aberto entre as mãos, dedica-se a uma actividade misteriosa e inquietante, embora o hábito o impeça de se surpreender com aquilo que faz. Pense bem. Está em silêncio, a percorrer com o olhar filas de letras que fazem sentido para si e lhe comunicam ideias independentes do mundo que o rodeia neste momento. Retirou-se, para dizê-lo de alguma forma, para uma divisão interior onde lhe falam pessoas ausentes, ou seja, fantasmas visíveis apenas para si (neste caso, o meu eu espectral) e onde o tempo passa ao ritmo do seu interesse ou do entendimento. Criou uma realidade paralela à ilusão cinematográfica, uma realidade que só depende de si. Você pode, em qualquer momento, afastar os olhos destes parágrafos e voltar a participar na ação e no movimento do mundo exterior. Mas, entretanto, permanece à margem, onde escolheu estar. Há uma aura quase mágica em tudo isto.» (p.59)

Não é, obviamente, de ilusionismo que se trata, mas da assunção, clara e inequívoca – por parte de uma cientista das humanidades, uma estudiosa consumada –, do sortilégio e do desconhecido de que se abeira qualquer leitor. Assim como não é uma história, em sentido estrito, da cultura, ou da leitura, ou dos livros, também o não é do leitor. Mas, como todas aquelas possibilidades – a cultura, a leitura e os livros –, também o leitor é estudado aqui. Sem que isso signifique a disciplina, a fixidez e o plano rígido de uma história:

«Na verdade, se observarmos as nossas origens, descobrimos que os leitores são uma família muito jovem, uma meteórica novidade. Há cerca de 3800 milhões de anos no planeta Terra, certas moléculas uniram-se para formar umas estruturas particularmente grandes e emaranhadas chamadas organismos vivos. Animais muito parecidos aos humanos modernos apareceram pela primeira vez há 2,5 milhões de anos. Há 300 000 anos, os nossos antepassados domesticaram o fogo. Há cerca de 100 000 anos, a espécie humana conquistou a palavra. Entre os anos 3500 e 3000 a. C., sob o sol abrasador da Mesopotâmia, alguns génios sumérios anónimos traçaram sobre o barro os primeiros sinais que, ultrapassando as barreiras temporais e espaciais da voz, conseguiram deixar uma marca duradoura da linguagem. Só no século XX, mais de cinco milénios depois, é que a escrita se converteu numa habilidade estendida, ao alcance da maioria da população — um longo percurso; uma aquisição muito recente.» (p.293)

Obra de enorme rigor e espectro vastíssimo, O Infinito num Junco alcança o feito de não ser um manual, nem um compêndio. Embora seja, como é óbvio, o fruto longamente amadurecido de um vasto acumular de saberes e de um labor incalculável, existe, enquanto livro, como objecto de desejo e de prazer. O desejo de conhecer e o prazer imenso de tentar saber. O Infinito num Junco é um dos mais brilhantes e convincentes elogios do livro que o nosso tempo poderia conceber:

«A invenção dos livros foi talvez o maior triunfo na nossa tenaz luta contra a destruição. Confiámos aos juncos, à pele, aos farrapos, às árvores e à luz a sabedoria que não estávamos dispostos a perder. Com a sua ajuda, a humanidade viveu uma fabulosa aceleração da História, do desenvolvimento e do progresso. A gramática partilhada que os nossos mitos e os nossos conhecimentos nos proporcionaram multiplica as nossas possibilidades de cooperação, unindo leitores de diferentes partes do mundo e de gerações sucessivas ao longo dos séculos.» (p.398)

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