home Didascálias, TEATRO Purificados – Teatro da Politécnica, 10/5/2019

Purificados – Teatro da Politécnica, 10/5/2019

Preparem-se para entrar numa outra dimensão, uma viagem alucinante em que serão confrontados com uma realidade onde tudo é extremo, brutal, cruel. A vertiginosa sucessão de cenas e a intensidade do drama leva-nos à exaustão. Como é possível retratar em palco tanto horror, tanto sofrimento, de forma tão credível, tão, tão real!?

Algures entre Shutter Island, filme baseado no romance de Dennis Lehane, e a conhecida saga de terror Saw, a trama de Purificados revela-nos uma câmara de horrores, de tortura e humilhação, onde o mal, personificado na personagem de Tinker, controla os destinos e sobretudo os castigos de alguns que a ele se submetem. Entre cenas, sentimos o coração acelerado, a respiração alterada e somos genuinamente arrastados pela vivência do medo. Tal qual como num bom filme de terror, obrigamo-nos a relembrar a espaços de que tudo é afinal representação, que o que se apresenta à nossa frente é um palco, que são actores… e que actores!

Purificados é de uma exigência quase sobre-humana. Os estertores da morte, as convulsões de um corpo torturado, a impotência dos que sofrem são demasiado reais e surpreendemo-nos a odiar Tinker e a temer a escuridão que por vezes nos deixa a sós entre cenas.

Amar-te-ei para sempre! As promessas dos amantes são testadas, a veracidade do amor posta à prova até ao limite -para lá do limite?- do suportável. Ali, «tiram-lhes a vida sem lhes darem a morte». Não há pausas, tempo ou intervalos de sossego, não existem eufemismos ou escamoteios. Tudo é posto a nu em cima do palco: os corpos, o sexo, o amor homossexual, o incesto. São estes temas fracturantes, imagine-se, o único bálsamo no decorrer da peça, porque o amor e a sua frágil sobrevivência é o unguento nas feridas abertas nas personagens e nos espectadores.

O palco surge nu e assim permanece. Há apenas uma cortina translúcida, magistralmente usada como véu do amor e da morte, como parede para um espaço que imaginamos de uma projecção ou fixação de Tinker: a Mulher sedutora dominada, que talvez, por fim, o domine. Há ou não no mais pérfido torturador lugar para o amor? O jogo de luzes da responsabilidade de Gonçalo Carvalho é notável, corrobora o incómodo, o cansaço e o desespero no drama. A música original de Gil Amado é de uma extrema beleza, de uma sensibilidade que espelha o amor, a aflição e o desespero. O elenco? Do melhor que já tivemos o prazer de ver em palco. João CacholaJoana Jorge, Erica Rodrigues. Decorem estes nomes

O espectador sai a correr de Purificados, talvez sem aplaudir o suficiente, porque precisa de reencontrar a normalidade nas ruas, de se libertar de um tempo de pura opressão, para só depois tomar consciência do privilégio de ter assistido a um magistral momento de teatro.

Em cena até 18 de Maio.

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