home Didascálias, TEATRO Trópicos Mecânicos (Mueda) – Lisnave, 3/10/2021

Trópicos Mecânicos (Mueda) – Lisnave, 3/10/2021

Trópicos Mecânicos (Mueda), performance apresentada no âmbito do BoCA 2021, é a primeira criação para teatro do realizador Felipe Bragança, em parceria com o Teatro Griot (representado pelos actores Matamba Joaquim, Zia Soares, Gio Lourenço, Daniel Martinho) e a actriz Catarina Wallenstein. Desenvolve-se na intersecção entre um território geográfico (Mueda) e um espaço simbólico, o sentido da História e o que ela nos faz carregar para o presente, entre a memória colectiva de um massacre (Moçambique, Mueda, em 1960) e o imaginário/ficção de um futuro possível.

A personagem central, interpretada por Matamba Joaquim, viaja no tempo, em continua tensão dramática, com uma imperiosa vontade de apagar o passado. Uma questão vai-se revelando e impondo de forma critica, ao longo dos 50 minutos de palco: é possível apagar a história e manter a identidade? “No teu filme havia uma saída?” perguntam os actores a dada altura da performance. Até que ouvimos ecoar a frase “Pergunta àqueles senhores se há Moçambique sem aquele massacre e se há aquele massacre sem Moçambique”, como se o presente viesse resgatar o passado no eco simultâneo das palavras e imagens reflectidas na parede à nossa frente, fragmentadas como a memória ou as peças de um jogo que se sobrepõem, pedindo-nos que as encaixemos e resignifiquemos.

Trata-se de uma obra que mistura momentos do filme Mueda Memória e Massacre (1979), do realizador moçambicano Ruy Guerra, registo filmado da memória de um povo em que, às palavras de Ruy Guerra, ”a ideia da libertação é maior que ideia da morte”. Assim se nutre o presente em que conseguimos ouvir fragmentos de poemas deste realizador, no constante imaginário poético dos acontecimentos “Eu tenho como país/Uma asa negra de vento (…) Uma bússola gangrenada de esperança/ Na verdade eu só tenho como país, essa insónia teimosa dentro de um sonho vivo” (Meu País, Maputo, 1981).

Um espectáculo multimédia e multidisciplinar que mistura diferentes linguagens – teatro, cinema, poesia – e onde a musica (a poderosa composição e arranjos musicais de Selma Uamusse, Milton Gulli e 40D) assume um papel essencial, conferindo ritmo próprio à encenação, para que também os figurinos de Ana Carolina Lopes em muito contribuíram. Uma experiência imergente e sinestésica, afinal.

O território escolhido para esta performance teatral, a Lisnave em Cacilhas, é um referencial de peso dessa energia de um inconsciente colectivo bem sentido e presente, a quem ninguém consegue ficar indiferente. Se é verdade que os lugares nunca estão vazios, este é propicio a pensar e a pesar o lugar da memória, porque “o tempo disfaz-se sem ser mastigado. Entendem?” como advertem os actores. Cabe-nos digerir o passado nesta catarse e encontrar a abertura para “o futuro [que] não existe, o que existe é o teatro”. Afinal, a ficção é o lugar do futuro. E assim se compreende o que Ruy Guerra nos quis dizer quando afirmou em Mueda “Só um povo que faz da guerra de libertação um acto cultural, pode fazer da memória cruel de um massacre uma festa”.

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Ficha Técnica 

Criação: Felipe Bragança em parceria com Teatro GRIOT e Catarina Wallenstein
Criação dos Vídeos: Felipe Bragança
Intérpretes: Matamba Joaquim, Zia Soares, Gio Lourenço, Catarina Wallenstein e Daniel Martinho
Apoio na criação e cenografia: Victor Gonçalves
Colaboração na criação visual: Luang Senegambia Dacach
Figurinos: Ana Carolina Lopes
Música original: Selma Uamusse, Milton Gulli e 40D.
Direção de Fotografia do Vídeo: João Leão
Desenho de luz: Carolina Caramelo
Produção: Ana Lobato, Felipe Bragança
Citações e inserts: filme “MUEDA – Memória e Massacre” (dir. Ruy Guerra, 1979) e poemas de Ruy Guerra
Residência artística: Centro Cultural da Malaposta
Projecto financiado por: República Portuguesa – Cultura / Direção-Geral das Artes
Parceiro institucional: República Portuguesa – Ministério da Cultura
Apoio: Baía do Tejo
Fotografias: Bruno Simão / BoCA Bienal de Artes Contemporâneas 2021

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