home INTRO(specção) Visões do Império – Cinema Ideal, 19/7/2021

Visões do Império – Cinema Ideal, 19/7/2021

Nestas notas sobre Visões do Império de Joana Pontes, comecemos pelo início. Vasco da Gama chegou à Índia, e depois? Após estacionar o barco, que aconteceu? Sabemos, pelo menos, que não foi o próprio Vasco da Gama a fazê-lo. Nos Lusíadas é um mouro “[…] instruído nos enganos / Que o malévolo Baco lhe ensinara” (Canto I, estância 97) que ajuda o capitão a seguir da costa oriental africana para a Índia.
As histórias que todos conhecemos parecem acabar na expansão marítima. Soam familiares os nomes de Bartolomeu Dias e Diogo Cão, mas quase nada conhecemos sobre o governo dos territórios do império. Ficou-nos na memória a coragem aventureira dos marinheiros, mas não a mão de ferro dos que lá ficaram.
Supomos que existiram massacres, torturas, violações, enforcamentos, trabalho forçado, movimentos populares de resistência e, claro, que os portugueses foram grandes senhores do comércio escravo transatlântico. Mas isto tudo até quando? Isto tudo onde? Isto tudo como e em que escala? Importa revisitar? Mexer em sangue? Desconstruir mitos? Não só os do Estado Novo, mas os monárquicos, os republicanos e os que sobreviveram ao 25 de Abril? Vale a pena mostrar ou, não negando, seguir em frente com a dignidade que os direitos humanos conferem? O mais recente filme de Joana Pontes, Visões do Império, escolhe claramente um lado: mostrar.
Qual o papel da fotografia na representação do império? O número de imagens por estudar é avassalador, entre arquivos, espólios e coleções. Joana Pontes decidiu entrevistar quem já trabalha com estes objectos: arquivistas, vendedores da feira da ladra e historiadores.
O documentário nunca perde a linha condutora, apesar do tema se prestar a isso. Questões de direitos humanos são tratadas com rigor académico, dando ao próprio filme a estrutura de um ensaio. Cada interveniente é um argumento e cada fotografia leva-nos para caminhos diferentes. Existem denúncias que superam a simples intervenção.
Na sala do Cinema Ideal, falou-se do estatuto do indigenato, das explorações etnográficas, das memórias felizes, da deportação forçada de negros angolanos para os campos de trabalho de S. Tomé. Século XX, digo.

Os socos dados ao espectador são ainda mais fortes pela crueza de linguagem. O documentário recusa a dissimulação. Tem-se acesso ao texto cru de um soldado racista no verso de um postal com uma mulher negra na frente. Tem-se acesso, em fotos, às correntes que unem os pescoços de homens negros à volta de um português conquistador. Sentado num cadeirão, vestido de branco.
Visões do Império é um elogio ao estudo científico. Constitui uma arma discursiva contra o branqueamento da história e a repetida manipulação que se segue. Em 2021, depois de marchas na Avenida da Liberdade que negam o racismo, escondendo-se atrás do conforto do esquecimento; com a cultura de cancelamento a ganhar força em todo o mundo e já com consequências em Portugal; o filme de Joana Pontes apresenta-se como um manifesto pela inteligência da curiosidade. Restam-nos os objectos, a memória, a ciência, a literatura, a arte e o cinema. Temos connosco todos os séculos anteriores e a possibilidade de criar. Como o mouro que tomou o leme da armada portuguesa, estamos em vantagem face a Vasco da Gama. E Joana Pontes sabe navegar.

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