Quantas vezes nos sentimos presos a um rótulo e deixámos que este nos defina, sem sabermos quem realmente somos? Quantas vezes nos deixamos gerir pela expectativa alheia sobre o nosso comportamento? Vivemos em caixas e caixinhas e, consoante a gaveta onde nos colocam — raramente por iniciativa própria —, é esperado de nós um determinado papel. Afinal, todos parecem saber como nos devemos comportar, sentir e até vestir. É precisamente esta a ideia central de Cock, uma peça que se assume como uma luta interna feroz sobre identidade, autenticidade e o lugar onde nos encaixamos. No meio de tudo o que a sociedade espera de nós, onde ficam os verdadeiros sentimentos?
Nesta peça acompanhamos João, o protagonista, que vive há vários anos uma relação estável e de longo prazo com o namorado. As suas certezas, contudo, desmoronam-se de forma abrupta quando se apaixona acidentalmente por uma mulher. Dividido entre dois mundos e sufocado pelas pressões para se definir, João torna-se o epicentro de um turbilhão emocional.
As interpretações são irrepreensíveis: Cristóvão Campos encarna brilhantemente o protagonista, fazendo com que o espetador sinta visceralmente todo o seu sofrimento, acompanhado com a mesma perfeição por Romeu Costa no papel do namorado de longa data, Gabriela Barros como a mulher por quem João se apaixona, e Adriano Luz na pele do pai do namorado.
Na sua escrita brilhante, o texto de Mike Bartlett desafia o espetador: longe de gerar empatia imediata pelo protagonista, direciona-a inicialmente para os dois alvos do seu afeto. No entanto, à medida que a narrativa se desenvolve, essa distância dissipa-se. Quase de forma visceral, começamos a sentir a angústia de João perante a incapacidade de saber quem é na realidade. Afinal, quem somos nós fora da caixa em que nos colocam?
Mais do que uma obra sobre orientação sexual, Cock ergue-se como uma reflexão dura e necessária sobre a identidade e a sufocante pressão social e pessoal para “escolher um lado”. Numa sociedade que exige categorização rápida e rótulos definitivos, a peça expõe a violência subtil das expectativas coletivas.
A encenação, a cargo de Ricardo Neves-Neves, confirma o talento a que já nos habituou e não desilude. Com uma direção firme e sensível, a sua abordagem cénica serve na perfeição a agudeza do texto, transformando o palco num espaço de confronto cru.
Cock está em cena até 22 de dezembro, com sessões todas as segundas e terças-feiras, no Teatro Maria Matos. É um espetáculo obrigatório para quem procura teatro que não se limita a entreter, mas que nos obriga a olhar o espelho e questionar as caixas onde nos deixamos encerrar.
FICHA TÉCNICA
texto Mike Bartlett
encenação Ricardo Neves-Neves
tradução Ana Sampaio
cenário F. Ribeiro
figurinos Filipe Carriço
desenho de luz Catarina Côdea
sonoplastia Sérgio Delgado
assistência de encenação Miguel Ponte e Constança Paulo
produção Força de Produção
Interpretação Adriano Luz, Cristóvão Campos, Gabriela Barros e Romeu Costa
M/16
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