Para os mais atentos ao meio literário português, é difícil não ter um olho posto na Suma de Letras, chancela da Penguin Random House Portugal que edita alguns dos livros de jovens autores sobre os quais já repousei o meu olhar crítico: Sinais de Fumo de Alex Couto, A Cicatriz e Filha da Louca de Maria Francisca Gama e agora Coisas Ruins de João Zamith. Ainda que vastamente diferentes, percebe-se que na Suma de Letras se passa algo semelhante ao observável no meio jornalístico e político: uma aposta forte no conceito de “jovem”, preenchido por indivíduos que, em bloco, impulsionam a substituição da geração intelectual do passado. Ser jovem — em idade, mas sobretudo em brand appeal — tornou-se um ativo literário e a Suma de Letras parece compreendê-lo bem. É neste contexto que surge João Zamith, que se estreia na ficção com Coisas Ruins.
Neste livro, o escritor vimaranense recua ao imaginário minhoto, entrelaçando o esoterismo católico com o folk horror, categoria pouco explorada na ficção nacional. Uma escolha temática nada tímida, mas cujo resultado se poderia resumir numa palavra: competente. Traçando um mapeamento dos autores da Suma, o “competente” de Coisas Ruins talvez se oponha ao “fresh” de Sinais de Fumo, e ambos se oponham ao “sensacionalista” de A Cicatriz e Filha da Louca. É a partir desta ideia de competência – técnica, mas não arrebatadora – que se desdobra a crítica nos seus prismas técnico, temático e contextual.
A estrutura narrativa é sempre reveladora: indica não apenas as expectativas que o leitor pode formar sobre a consistência da obra, mas também aquilo que expõe do próprio autor. Em Coisas Ruins, esse enquadramento formal confirmou a sofisticação técnica de João Zamith mas também a sua educação formal e literária. É importante sublinhar que, estando perante o género “terror”, é vital saber gerir a cadência sincopada de tensão e alívio até ao clímax do terror. Em suma, o género a que o autor se propôs exige respeito, mas igualmente domínio, pela estrutura clássica da ficção de terror e João Zamith sabe fazê-lo.
Deste modo, pouco tenho a apontar sobre o efeito aterrorizante de Coisas Ruins. Houve um cuidado evidente com a estrutura que, se seguida escrupulosamente, atinge bem esse desiderato. Na exposição, há um entendimento importante de que o ambiente é, em si mesmo, uma personagem, pelo cuidado em utilizar um campo lexical sombrio (mas não muito longe da verdade) aquando da descrição dos locais – Guimarães, Montalegre e todo o imaginário minhoto – mas igualmente da família Viaforte, aparentemente funcional, mas com óbvias fissuras que lentamente abrem espaço a forças sinistras.
A família Viaforte é apresentada nas suas várias gerações — Henrique, o patriarca e bisavô de Mariana; Francisco, o avô; Ricardo e Catarina, os pais. É igualmente apresentado Sérgio, padre e amigo de juventude de Ricardo, mas também Patrícia, a melhor amiga e potencial namorada de Mariana e finalmente Camila, o verdadeiro amor de Ricardo, cuja descrição é adiada até muito perto do clímax narrativo, por nela residir o busílis da tragédia que irá abater-se sobre os Viaforte.
Há uma construção rica e cativante das personagens como veículos dos diferentes planos de narração. À família Viaforte surge associada a caracterização social da “quase” aristocracia nortenha igualmente lúgubre, cujo mal é materializado no horror que os vitima.
“Os Viaforte como toda a elite económica portuguesa, queriam viver no futuro e no passado ao mesmo tempo. Aterrorizados pela possibilidade de o progresso lhes comer o estatuto, incapazes de assumir a natureza do seu privilégio, ficavam-se pelo estuque branco.”
Sérgio serve o plano esotérico e católico da trama, no confronto que já se avizinha com o pagão, mas igualmente como contraponto emocional no casamento em ruínas de Catarina e Ricardo, ameaçando expor o triângulo amoroso na base desta união. Patrícia é o comic relief, com expressões de contemporaneidade, por contraponto a uma experiência de leitura que se poderia revelar por vezes demasiado sombria para o leitor mediano. Camila é apresentada como veículo das lendas pagãs do Norte de Portugal, das “caras brancas”, do sal grosso à entrada de casa.
O romance cumpre a gramática clássica do terror: os primeiros sinais de perturbação, com vultos que assombram Catarina; a escalada de tensão, com Ricardo ainda a racionalizar o inexplicável; o confronto direto, com a morte de Catarina num acidente de viação provocado pela ‘cara branca’ e por fim o desfecho na casa dos Viaforte em Montalegre, onde se encontra a génese do horror. É, no geral, uma experiência de leitura agradável pela qualidade da escrita.
Todavia, a competência geral de Coisas Ruins é manchada por um erro crasso no encadeamento narrativo. Facto assente e, aliás, essencial para o zénite narrativo, é o de que Camila e Ricardo se conheceram (sendo os dois os melhores alunos no curso de Literatura na FCSH) quando Camila pediu explicações privadas de Teoria da Literatura a Ricardo. No entanto, no capítulo 36, há uma descrição temporal e contextual da vida de Ricardo simplesmente incompatível: “quinto ano da licenciatura em Engenharia Informática”, com a nota adicional de que “Sabia que era um aluno banal, mas fino o suficiente para passar”. Este capítulo, de apenas duas páginas e meia (algo que não se observa no resto do livro), contradiz frontalmente o fio narrativo com factos nunca explicados ou sequer mencionados no resto da obra. Trata-se de um erro que não pode ser lido como liberdade criativa: é uma incoerência estrutural.
A obra de terror vive precisamente da consistência interna que permite ao leitor aceitar o irreal. Um lapso deste género quebra esse pacto e lembra-nos que estamos perante um artifício mal revisto. O Capítulo 36, pela sua brevidade e aceleração, transmite ainda a impressão de um texto apressado, possivelmente inserido sem revisão cuidada ou com versões contraditórias de rascunho. Em qualquer caso, é um erro de edição grave, daqueles que funcionam como “rachas no estuque” de um livro que até então se sustentava na sobriedade técnica.
Finalmente, e se no dicionário “competente” indica algo como “capaz; qualificado”, o reverso da moeda é a ausência de innuendos que indiquem algo como “eletrizante”, ou “arrebatador”, ou “vibrante”. De facto, em termos temáticos, Coisas Ruins fica aquém no objetivo de arrancar do leitor uma sensação que perdure no tempo. A sua competência, inquestionável a um nível técnico, não se traduz num poder de permanência ou num debate fervoroso que extravase as páginas do livro. Parece-me uma causa-efeito que quebra o potencial de atenção que uma obra pode receber. Coisas Ruins não tem este efeito eletrizante que, para bem e para mal, alimenta o ciclo de exposição da obra a mais leitores, mais críticas, mais entrevistas, mais vendas. Coisas Ruins priorizou a dignidade literária ao invés do choque que vende no “aqui e agora”.
Atrevo-me a utilizar este hook para uma crítica cultural mais ampla: parece-me que o livro é vítima (ou simplesmente produto) do seu próprio tempo, obrigado (ou escolhido) a ser funcional em termos da categoria terror folk para ser facilmente assimilado. Recorro à metáfora do filme The Materialists: funciono no mercado geral ou terei de enveredar pelo mercado de nicho para me destacar? Ao ler o livro, assolava-me uma ideia: sendo esta temática tão distinta da mescla literária nacional, será que o escritor recorreu ao imaginário nortenho do terror apenas para ter sucesso? Não é bom ou mau, só suscita a questão a seguir: o escritor não teria confiança suficiente no sucesso do livro no mercado generalista? Talvez quisesse simplesmente fazer terror, uma resposta perfeitamente válida. Ainda assim, atrevo-me a adivinhar que, tal como me apareceram estas questões, também ao autor terá ocorrido encaixotar a sua ideia num género por explorar. Não sei se Coisas Ruins é produto ou vítima dessa lógica, mas fica a sensação de ter sido escolhida a via da segurança.
Digno de registo é o facto cómico de o autor ter dado cinco estrelas ao seu livro no Goodreads. Quanto a mim dei quatro. E o que significa isso, na escala maior da experiência literária? Evidente que não o mesmo que o meu três atribuído a Bell Jar, Dom Casmurro ou O Ano do Pensamento Mágico. A nota alta a Zamith reflete mais o contexto em que o livro se insere (literatura portuguesa contemporânea, por vezes sofrível) do que um valor literário absoluto.
Dir-me-ão “temos de apoiar a cultura nacional”. Sem dúvida, mas não seria um exercício mais justo e dignificante vergar o nosso mercado nacional a um mínimo de exigência em vez de um vago patriotismo? Algo como o erro de edição do capítulo 36 seria intolerável no mercado editorial internacional, e é isso que anseio para a literatura portuguesa – que não sacrifique potencial literários com erros de principiante. E se Coisas Ruins é “competente”, talvez devamos exigir que a competência seja o ponto de partida e não o ponto de chegada.
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