home Antologia, LITERATURA As Pessoas do Drama – H. G. Cancela (Relógio D’Água, 2017)

As Pessoas do Drama – H. G. Cancela (Relógio D’Água, 2017)

Hélder Gomes Cancela nasceu em 1967 e é docente da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, onde lecciona Estética e Crítica de Arte. É autor de ensaios críticos na área da estética e dos romances Anunciação (Afrontamento, 1999) e De Re Rustica (Afrontamento, 2011), Impunidade (Relógio d’Água, 2014). As Pessoas do Drama de H.G. Cancela, partilhando algumas temáticas com os seus romances anteriores, é o seu trabalho mais maduro e conseguido. Tal como no seu admirável romance anterior Impunidade, ler As Pessoas do Drama é mergulhar num mundo muito próprio de tensão e de subversão, uma meditação intensa sobre o comportamento extremo do ser humano. Desde o início, encontramos um trabalho de linguagem singular, escrito como que esboçado a golpes, uma obra de inquietação que escava até ao âmago das personagens. A importância deste romance de H. G. Cancela deve-se ao vigor e à densidade da sua linguagem literária, que consegue revitalizar a narrativa portuguesa contemporânea. E que necessidade tem a parca ficção portuguesa de uma escrita tão dilacerante como esta!
O enredo começa uma longa sequência sobre um narrador não nomeado que, na sua propriedade rural, constrói uma extensa vedação, sem ter qualquer contacto com qualquer outra personagem. Esta personagem isola-se, e encontramo-la em queda, uma marca distinta de H.G. Cancela. Deste narrador pouco se sabe, para além de que foi condenado a uma pena de prisão de vinte e três anos, mas desconhece-se o crime que cometeu. A próxima personagem a ser descrita, e a primeira a ser nomeada, é Laura Sperelli, uma atriz que transita entre as fronteiras do palco e da vida real, em dispersão existencial.
Acabado o seu trabalho na sua propriedade rural, o narrador vai observar todas as Lauras num teatro de Roma, na sua interpretação de Antígona. Laura acaba por conhecer o narrador, e encontram-se sucessivamente, até começar uma relação, bem distante longe da tradicional relação sentimental. A sua ligação é uma espécie de compromisso, em que cada um se apoioa no outro, tentando não se afundar completamente nos seus dramas íntimos. Laura está grávida, ao contrário de Antígona da peça de Sófocles que personificava a pureza e a piedade no mundo clássico. O narrador acaba por cuidar de Andrea, a filha de Laura e do encenador Filippo Arborio, mas a relação de Laura com ambos esses homens é sempre de estranheza, de uma fria intimidade e de profundo desconhecimento mútuo.
Tal como em alguns dos romances anteriores de H.G Cancela, existe nesta obra uma personagem feminina que é fulcral nesta obra. Laura é uma figura trágica, o pilar das acções conflituosas das personagens que a rodeiam, alvo das obsessões e das frustrações do narrador e de Filippo. O encenador, que a descobriu para a representação quando era mais jovem, desenvolveu uma necessidade de oprimir regularmente Laura.

“Há uns anos, quando olhava para ela, eu via uma promessa de vida. Agora vejo carne. Carne que fala, que vê, que se movem carne capaz de decorar um texto e de se expor em palco, mas carne. Talvez a balança seja suficiente, avaliada ao peso e a preço de mercado.” (página 264)

A gravidez de Laura é a forma derradeira da inevitabilidade da sua condição feminina. Este romance coloca em cheque e amplifica as complexidades das relações entre as personagens que tentam infrutiferamente viver e relacionar-se entre si. “Não consigo viver com ninguém cujo comportamento não é justificável” (página 41). Laura é uma actriz que tenta com algum sucesso encarnar os papéis das personagens que interpreta, ao contrário da vida real, onde tem dificuldades em assumir os seus problemas pessoais.

“Prescindia de dramas, bastava-lhe a meia dúzia de obsessões com as quais construíra o que tomava por estilo. Se já tinha desistido de fazer do palco uma imitação da vida, permanecia preso à ideia de que vida era uma imitação do palco, uma versão mais pobre, raramente verossímil, e quase nunca susceptível de ser rectificada” (página 148)

O narrador, a actriz Laura, e o encenador Filippo Arborio são personagens erráticas que divagam entre a solidão com uma relação obsessiva e complexa com outras personagens, personagens afligidas por sentimentos de culpa e de falhas, que parecem até perder a capacidade de falar. Uma outra personagem, Victor, permanece mesmo mudo ao longo de todo o romance. Esta falta de comunicação é usada para acentuar a ausência de partilha entras as personagens, que permanecem isoladas, entregues a si mesmas, sendo elementos exógenos, fora do seu mundo.

«´É cigano”,
Perguntou
“Árabe”
Respondi que nunca me havia ocorrido. Era moreno, mas passava o ano inteiro no exterior, não precisava de ser cigano ou árabe. Era espanhol, tinha os olhos azuis, vivia em Portugal há mais de vinte anos. Era mudo.
“Mudo”
Repetiu.
Confirmei. Não emitia um som. Não era surdo, apenas não falava, conseguia ouvir. Trazia com ele um caderno onde escrevia o que queria dizer. Ela levou o indicador à boca e contornou os lábios. Seria isso. Ele poderia ser espanhol, cigano, árabe, pálido ou moreno, mas era outra coisa. A independência.
“Um mudo não tem língua. Não tem país. Pertence a si mesmo”.» (página 174)

H. G. Cancela escolhe como um dos palcos do romance a cidade de Roma, onde as personagens deambulam, e adopta o tema da tragédia grega, que faz parte da vida profissional artística das personagens. Estes dois elementos, com grande peso cultural na Civilização Ocidental, são aqui usados como elementos desconstrutivos para descrever um ambiente de pessimismo comum a toda a história da humanidade: “Da culpa, alguma coisa entre Atenas e Jerusalém” (página 264). Neste romance, o espaço é acima de tudo uma forma privilegiada para enfatizar a tensão narrativa, seja o espaço a cidade de Roma ou Lisboa, o espaço rural ou o espaço citadino, existe sempre em todos esses espaços um ambiente centrípeto que leva as pessoas e os animais convergirem para uma “ocupação do espaço e da reprodução do caos.”

“Á noite, ouvia-se o ladrar dos cães. Laura habituou-se a fechar as portadas assim que anoitecia, não tornou a descer ao pátio com a criança. Eu não insistia. Tinha compreendido aquilo com que poderia contar. Cães ou cabras, homens ou animais, cada um fazia o que era preciso fazer, não exactamente o que queria, mas o que era preciso, com uma noção de dever que não saberiam questionar e que não era compatível com as dos restantes. Qualquer que fosse a opção, nunca era mais do que uma estratégia de ocupação do espaço e de reprodução do caos, multiplicando-se e multiplicando-o.” (página 169).

Ao mesmo tempo que existem estas crises entre as personagens, encontramos neste romance uma descrição constante dos efeitos desgastantes do tempo nos objectos, nos edifícios e nas próprias pessoas: “Vivo em Roma, sei reconhecer a ruína.” (página 250). O tempo serve como uma testemunha da atividade humana, um observador omnipotente das suas ruínas, manchas e obsessões. Ao contrário das tragédias gregas, não temos aqui determinismo estruturante que condena as personagens a um castigo divino e superior. Temos antes, personagens mais modernas, mais cientes de uma limitação profunda da natureza humana, que nunca cedem a considerações divinas ou metafísicas, mas agarram-se a uma simples tentativa de sobrevivência, como que assombrados em relação à sua própria existência. As personagens são descritas como se fossem peões que tentam sobreviver jogada a jogada, privilegiando os seus instintos, sem nunca verdadeiramente tentarem alcançar uma qualquer forma de liberdade.
Uma das razões pela qual a prosa de H.G. Cancela tem um teor de grande densidade e de tensão narrativa deve-se ao facto de as suas personagens andarem em deriva pelo mundo, presas a actos repetitivos, não conseguindo escapar de si mesmas ou do seu passado. Em As Pessoas do Drama está ainda presente uma descrição de uma componente biológica, hereditária, da animalidade presente no ser humano que adensa um sentimento de culpa.

“A decadência não se compra, herda-se. Recebe-se como se recebe o sangue”.
Disse. Ele conhecia-a, sentia-a no seu próprio corpo, uma contracção do tempo sobre ele mesmo. O que se perdia já não era substituído, o que ser deteriorava permanecia em uso, cada vez mais degradado. Os organismos iam-se danificando, perdendo funções e competências até que sobravam os ossos” (página 249).

Ao longo deste romance, as relações tensas entre as personagens são o suporte da acção e do significado do seu enredo, e constituem uma proclamação de uma crise do mundo moderno em que a família e as relações humanas se arruinaram. O tratamento de temas metafísicos, utópicos ou progressistas pelas personagens é evitado, dando lugar a um código de comportamento de sobrevivência, intrínseco a cada uma das personagens. Esta obra é, com efeito, de um pessimismo antropológico, não de um pessimismo moralista, já que nenhuma das personagens é motivada moralmente ou eticamente, mas antes controlada por vícios, pulsões e tentações humanas. Incapazes de escapar das suas experiências dramáticas individuais, não conseguem ter uma relação construtiva com qualquer outra personagem ou com a sua comunidade, numa existência que poderia ser classificada de solipsismo dramático.

“Prescindia de dramas, bastava-lhe a meia dúzia de obsessões com as quais construíra o que tomava por estilo. Se já tinha desistido de fazer do palco uma imitação da vida, permanecia preso à ideia de que vida era uma imitação do palco, uma versão mais pobre, raramente verosímil, e quase nunca susceptível de ser rectificada. Tornou a olhar para mim, depois para a mulher,
“Já todos vimos tudo. Vimos, ouvimos, lemos, é suficiente. Só falta uma coisa”.
E era preciso concluí-la ainda antes de se compreender que tinha de ser feita. Ela fixou-o, desinteressada, como se ele se reportasse a outra pessoa. As obsessões dele não eram as suas. Ele insistiu,
“Sabe do que falo. Fazer uso da faca”.
Procurar com calma e cravá-la no lugar certo. O ventre, a garganta, o coração, o espaço intercostal do lado esquerdo do peito. Bastaria um golpe, retirá-la ou não seria opcional. O sangue nunca era fácil de lavar e ninguém quereria para recordação, nem a mão que a empunhava, nem a carne que sofria.
“A faca não tem afectos”. (página 271).

Pode considerar-se que a obra ficcional de H.G Cancela deva inserir-se numa espécie de neo-realismo desencantado. No entanto, esse rótulo (como qualquer) serve de pouco para classificar esta obra, já que observamos também uma experimentação temática e formal, e uma desconstrução extensa da narrativa. Igualmente, ao contrário de experimentalismos ocos de alguma literatura recente dita de vanguarda, Cancela nunca deixa de privilegiar o real (a sua versão do real), e considera sempre como matéria primária da sua escrita os conflitos existenciais e sociais das suas personagens.
Em As Pessoas do Drama encontramos um romance sem um desfecho claro, sem explicações de enredos ou das motivações mais profundas as personagens; não estamos perante uma tragédia, mas antes perante um drama como título nos indica: um drama da perplexidade humana. Este romance procura conjurar o que há de mais inquietante em nós, uma construção de intensidade, que não procura explicações, mas que oferece uma iluminação violenta do que há de mais profundo no ser humano.

Por defeito profissional, Jorge Ferreirinha Antunes escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

Mais recensões/crítica literária AQUI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *