Em setembro de 1942, as forças alemãs continuavam a avançar em direção a Estalinegrado, os Aliados lutavam contra os japoneses em Guadalcanal e 36 judeus chegavam a Tora e Piccilli (a norte de Caserta), vindos de Nápoles, enviados pelo regime fascista, para ali ficarem confinados. O rumo da guerra ia mudando aos poucos. O caminho de Davide mudaria para sempre.
Davide Buonasorte era guardador de porcos, coxo, excluído, filho de um fascista. Roubava cadernos, quando ia ao mercado, para inscrever no mundo a sua vida. “Não sabia escrever, mas tinha criado uma língua. Quando todas as páginas do caderno estavam completamente cheias de sinais, queimava-o no balde juntamente com ramos que trazia do bosque. Depois ia buscar outro caderno (…) e recomeçava. (p. 25) Na aldeia, só Teresa o via. “Era a pessoa mais instruída de Tora e Piccilli juntamente com o professor Anastasi da instrução primária. (…) À tarde, trabalhava na cordoaria do pai.” (p. 30)
A chegada do jovem judeu Nicolas transforma as suas vidas. Inquieto, livre, frágil, obscuro. “Era a prova de um mundo complexo e impossível de imaginar, um mundo que só podia ser contemplado na sua beleza.” (p. 45)
O Ladrão de Cadernos, de Gianni Solla, é o “bildungsroman” de Davide, Nicolas e Teresa. Os três jovens descobrem a atração, o amor, o ciúme, o risco ‒ mergulham juntos: “Ainda não sabíamos para que coisa nos dirigíamos, não sabíamos do que estávamos a fugir, tínhamos apenas a certeza dos nossos corpos jovens”. (p. 107) Para Davide, tudo partiria sempre daqui: “A minha vida começou com aquele salto.” (p. 110)
O guardador de porcos começa a frequentar secretamente as aulas do pai de Nicolas e aprende a escrever o seu papel no mundo. “Eis agora o inverno do nosso descontentamento tornado verão glorioso por este sol de York, e todas as nuvens que baixavam ameaçadoras sobre a nossa casa estão sepultadas no profundo peito do oceano.” (pp. 88-89) As palavras de Shakespeare e do seu amigo judeu vão ecoar para sempre em Davide. Quando sair de Tora e Piccilli, quando viver em Nápoles, será sempre à procura da voz do “profundo peito do oceano”, um eterno Outro no seu Eu.
Em O Ladrão de Cadernos, os diálogos, vivos e cénicos, são atravessados por uma fina sensibilidade poética. Na escrita de Solla, o teatro emerge como o grande lugar da verdade, capaz de repor dramaticamente a justiça a todos que têm a coragem de se mostrar e de se recriar. Na palavra reside a salvação, a redenção possível, a liberdade, a capacidade de viver e reescrever o tempo, na justa medida da capacidade humana. Como se diz no título da edição da obra em língua inglesa, com Shakespeare: There was a time for such a word.
Gianni Solla nasceu em 1974, em Nápoles. É autor de contos, peças de teatro e romances. O Ladrão de Cadernos é o seu primeiro romance publicado em Portugal.
Mais literatura AQUI