“Pés de Barro”, de Nuno Duarte, foi o romance vencedor do Prémio LeYa 2024. Ancorado no Portugal dos anos sessenta, bafiento e “orgulhosamente só”, conduz-nos pelos anos da Guerra Colonial, sem perder de vista o mundo em ebulição que se vivia lá fora, desde a morte de JFK à viagem de Gagarine pelo espaço.
Victor Tirapicos, um jovem serralheiro de 22 anos, chega a Lisboa para ganhar a vida na construção da primeira ponte suspensa sobre o Tejo. Fica a viver num pátio em Alcântara, em casa dos tios. Na terra, ilha das cobras, fica a família e a vergonha: dois anos de cadeia por ter roubado pão e batatas para matar a fome.
A ponte é o grande símbolo da obra. Capaz de unir as duas margens, mas incapaz de ligar Portugal ao mundo. Capaz de fitar o Cristo Rei, mas incapaz de evitar a partida dos jovens para o inferno de além-mar. Capaz de trazer a modernidade, mas incapaz de acabar com a miséria. “Era azar a ponte estar a fazer-se mesmo ao lado da doca de onde partiam os que iam combater para África e aonde chegavam os que de lá voltavam, os vivos e os mortos, uma ponte e uma guerra era um paradoxo, a palavra que o Ângelo Barraquinho lhe ensinara havia tantos meses.” (p. 146)
No Pátio do Cabrinha vivem várias personagens marcantes: o Tio Artur, sapateiro que fazia as chuteiras para o Atlético Clube de Portugal, o velho Ângelo Barraquinho, que ensinou Victor a ler, enquanto aprendia a desler, a jovem Dália, muda e a cheirar a chocolate Regina, capaz de escutar a vida interior do mundo.
Demorei a entrar nesta leitura. Victor Tirapicos fazia-me pensar em Baltasar Sete-Sóis, Dália lembrava-me Blimunda e a construção da ponte trazia-me à memória o imponente Convento de Mafra. Até o narrador demiurgo parecia falar com a voz discursiva de Saramago. Aos poucos, porém, fui encontrando em mim o lugar para esta obra. O ritmo rápido do fim do livro, a energia narrativa, capaz de acelerar o tom de romance histórico ‒ político e social ‒ à urgência do policial, e a claridade da alegoria construída surpreenderam-me e prenderam-me à história de Dália, Tirapicos e de Quim, o irmão estropiado por uma guerra que só defendeu a arrogância nacional.
“Um retrato muito dinâmico e vivo do Portugal dos anos 1960”, disse Manuel Alegre, Presidente do Júri. Senti que foi mais do que isso. Julgo que Nuno Duarte ensaiou, de facto, uma nova voz na literatura portuguesa. Espero voltar a escutá-la.
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