Furtado mantém-se numa forma invejável, irrepreensível no ataque a cada letra e acorde, rejuvenescido pela companhia em palco de músicos de excepção. Um concerto a não perder, em qualquer sala deste planeta.
A tarefa impossível de fazer novo um texto criado por outrem, decorá-lo, trabalhá-lo e repeti-lo à exaustão é a vida deste quinteto talentoso, aqui despida e reinventada. A peça comenta-se a si própria e os atores seguem esse movimento, num solipsismo cíclico a que assistimos absortos, para no final nos darmos conta de que somos também parte integrante desse todo cénico.
Todo o livro vive das clássicas dores do crescimento, o universal e intemporal choque entre a realidade e as expectativas, entre os sonhos e a dureza dos dias em que nada é certo, espiritual e biograficamente.
Os Orelha Negra dispensam apresentações. Colectivo único em Portugal, juntou músicos de diferentes origens e sensibilidades, para criar um som com raízes no hiphop, mas que, com facilidade, o desintegra e supera, criando memoráveis concertos, mais parecidos com block parties do que com os espectáculos tradicionais.
“Isto não é uma história. Isto é história (…) e, no entanto, quase tudo o que tenho ao meu dispor é a memória, noções fugazes de dias tão remotos, impressões anteriores à consciência e à linguagem, resquícios indigentes que eu insisto em malversar em palavras.” (pg. 37) “Não consigo decidir se isto é uma história” (pg. 39).
Os melhores (e os mais raros) concertos mantêm-nos na ponta da cadeira, em pulgas para ouvir a nota seguinte, como se de uma final do Europeu se tratasse. Só o Jazz preserva essa magia e quando os músicos encarregues de o tocar são de excepção, o divertimento é garantido. O concerto do novo projecto de João Hasselberg – Spectral Songs – no Passos Manuel prometia essa possibilidade…
“Uma das funções da arte é, sem dúvida, substituir a fé religiosa pela eficácia da beleza. Esta beleza deve ter, pelo menos, a força de um poema, quer dizer, de um crime.” (pg. 42)
Destacar momentos entre os 13 temas é tarefa difícil, mas fica no ouvido “Renewal”, pelo sua altamente viciante melodia principal, em volta da qual se desenrola o tema com o apoio do contrabaixo e da bateria.
O disco é bom, mas nada substitui ouvir este colectivo ao vivo, para confirmar que, ainda hoje, o Jazz é o único estilo musical onde nada é interdito.
Numa altura em que qualquer parvoíce se torna “viral” e os idiotas viram ídolos, os solos virulentos e insanos destes senhores justificam um hype planetário.
A masterclass, que juntou cerca de duas centenas de pessoas no lotado auditório da UCP Porto, teve por tema a TV americana nas últimas duas décadas.