home Antologia, LITERATURA No Jardim do Ogre – Leïla Slimani (Alfaguara, 2018)

No Jardim do Ogre – Leïla Slimani (Alfaguara, 2018)

Na introdução ao livro The Ballad of Sexual Dependency, um belíssimo retrato da dependência sexual, de relações afetivas e do desejo por outros, Nan Goldin escreve,

«Muitas vezes sinto que os homens e as mulheres são irrevogavelmente estranhos uns para os outros, irreconciliavelmente incompatíveis, quase como se fossem de planetas diferentes. Mas apesar disso, existe uma intensa necessidade de ligação. Mesmo que as relações sejam destrutivas, as pessoas agarram-se umas às outras. É uma reação bioquímica, que estimula aquela parte do teu cérebro que é satisfeita apenas pelo amor, a heroína ou o chocolate; o amor pode ser um vício. Tenho um desejo forte de ser independente mas ao mesmo tempo anseio pela intensidade que surge da interdependência. A tensão que isto cria parece ser um problema universal: a luta entre a autonomia e a dependência»[1].

Adéle, personagem central de No Jardim do Ogre, conhece de perto a tensão a que Goldin se refere, enquanto falha em resistir a mais um engate, ao mesmo tempo que tenta esconder os seus encontros sexuais fortuitos do marido e encenar a glória doméstica, adormecendo o que parece ser uma compulsão sexual em detrimento da maternidade, do casamento e da monogamia e da heteronormatividade. Ao ler o livro de Leïla Slimani, lembramo-nos do brutal Shame de Steve McQueen, com a diferença de o livro nos apresentar o vício sexual de uma mulher, algo raramente visto, e tentado, a nosso ver, de forma falhada no gratuito Ninfomaníaca de Lars von Trier. É ainda de referir a capa da edição portuguesa e a fotografia do francês Antoine d’Agata que esta apresenta, conhecido pelos retratos difusos de corpos distorcidos que se fundem a outros corpos e por abordar temas como a prostituição, o sexo e o consumo de drogas e que, caindo no cliché de julgar o livro pela capa, nos permite adivinhar a temática do mesmo.

Mais do que conhecer homens que quebrem a sua rotina burguesa, Adéle pretende escapar à domesticidade que abomina, simbolizada no livro pelos seus pais, pela vida financeiramente estável proporcionada pelo marido médico e uma eventual mudança para uma casa de campo, e conciliar essa fuga com a fome carnal que a compele a aproximar-se de todos os homens como possíveis companheiros sexuais e conservar um casamento baseado não no amor mas nos compromissos, nas cedências pessoais, nos sacrifícios e nas promessas que são feitas entre marido e mulher, numa luta interior entre ser boa esposa e mãe ou explorar as possibilidades do sexo e os limites do corpo.

Adéle não ama os homens com quem está nem lhes permite algum tipo de intimidade ou acesso a mais do que a esse espaço que é o seu corpo. Ela localiza os seus alvos em festas ou na rua, faz uma rápida aproximação e afasta-se depois da relação sexual da mesma forma fugaz com que seduziu estes homens. É-nos dito que Adéle “[n]unca teve outra ambição que não fosse ser vista” (16), o que poderia sugerir uma procura por validação pessoal e reconhecimento através deste encontros. No entanto, No Jardim do Ogre é mais do que um retrato do vício do sexo, sendo este apenas um sintoma da depressão de Adéle, uma forma, à semelhança de outras substâncias mencionadas no livro, como o álcool ou a cocaína, de tentar vencer a apatia e insatisfação que Adéle não consegue deixar de sentir, uma letargia que, quando nos é narrado o primeiro encontro sexual de uma Adéle ainda adolescente, parece já ter tomado conta do seu corpo e da sua mente. Adéle não protesta quando o marido decide que irão viver para o campo, não chora quando o pai morre nem grita quando o seu psiquiatra sugere que exprimir-se ajudaria a sua recuperação. Adéle é passiva, calada e estática, exceto no momento em que procura mais um homem que contrarie a sua falta de emoções e um sentimento de alienação em relação a todos e a todas que a rodeiam, em encontros que se tornam cada vez mais violentos fisicamente, culminando numa ménage masoquista impulsionada pelo consumo de cocaína, da qual sai com ferimentos graves. O corpo de Adéle é um local de delito, coberto de hematomas e outros ferimentos, onde o marido procura, depois de descobrir que esta mantém relações extraconjugais, provas de possíveis encontros com homens. Para Adéle, o controlo da sua vida passa pelo controlo do corpo, algo comum nas pessoas que apresentam doenças mentais relacionadas com frustrações e compulsões sexuais; ao longo do livro, Adéle obriga-se a deixar de comer e é no seu corpo que se encontram os indícios do seu estado mental:

«[Adéle] tem os cabelos sem vida, a pele mais pálida do que nunca. (…) Adéle acaba por se vestir de preto. Uma cor que nunca usava quando era mais nova. (…) Desde que está a murchar e que lhe parece ter perdido o viço prefere tons escuros.» (48, sublinhado nosso).

Ao longo do livro acompanhamos a inevitável queda de Adéle, que se encontra num permanente estado de medo e desconfiança, enquanto “as suas obsessões devoram-na” (79), até ao momento de aparente alívio, em que o marido a confronta com o segundo telemóvel que ela usa para contactar outros homens. É então que este decide que devem mudar-se para a casa de campo, afastando Adéle de possíveis recaídas; não se percebe se Richard perdoa a mulher por pretender conservar a aparência de estar casado com uma mulher que o ama perante os amigos, o filho e os seus pais ou se por finalmente perceber que, à semelhança de um paciente que era alcoólico e de quem cuidou enquanto este passava pela privação de álcool, Adéle está doente:

«Ao fim de quinze anos de prática, o Dr. Robinson pode dizer que conhece o corpo humano. Que nada o repele, que nada o assusta. Sabe decifrar os sinais, ordenar os indícios. Encontrar soluções. Até sabe medir a dor. (…) Junto de Adéle, tem a sensação de ter vivido com uma doente assintomática, de ter vivido lado a lado com um cancro adormecido, que corrói sem dizer como se chama. Quando mudaram para a casa nova, ele esperou que ela se desmoronasse. Estava convencido de que ela, como qualquer toxicodependente privado da sua droga, se passaria (…) saberia o que fazer, se ela se tornasse violenta, se ela lhe batesse, se desatasse a gritar durante a noite. Se ela se mutilasse, se enfiasse uma faca debaixo das unhas. Ele reagiria como um homem da ciência, receitar-lhe-ia medicamentos. Salvá-la-ia.» (141)

A última vez que vemos Adéle, esta parece finalmente feliz, ao dançar embriagada numa pista de dança com o holofote do male gaze direcionado para o seu corpo. O marido espera por ela numa estação de comboio, onde ela nunca chega, e o livro termina prometendo que a história deste casal não termina ali. O próprio leitor não sabe o destino de Adéle, e um piscar de olho breve e talvez inconsciente a Anna Karénina, vem enriquecer o desenlace, quando Adéle hesita entre saltar para dentro ou para debaixo do comboio que a levará ao marido, ao filho e a casa; felizmente é insuficiente para uma sentença mais definitiva de Adéle, que se espera menos trágica do que a da personagem de Tolstoi. Talvez Adéle tenha finalmente encontrado o jardim, não do Éden, mas do ogre, um jardim que poderia ser um detalhe do “jardim das delícias terrenas” de Bosch; o jardim, esse espaço que na literatura encerra em si a simbologia da busca pelo desejo, do escape, do rendez-vous secreto entre amantes e da aventura, evocado numa canção de PJ Harvey convenientemente intitulada The Garden : «And he was walking in the garden/ and he was walking in the night/ and he was singing a sad love song/ and he was praying for his life/ and the stars came out around him/ he was thinking of his sins (…) and there was trouble taking place.»

[1] Tradução nossa. Goldin, Nan. (2012). The Ballad of Sexual Dependency. New York: Aperture.

Por defeito profissional, a Ana Carvalho escreve de acordo com o novo desacordo ortográfico.

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