A tragédia de António e Cleópatra, sobejamente conhecida, encontra na encenação e texto de Tiago Rodrigues (estreada originalmente no D. Maria II em 2015), uma adaptação ao mundo atual, que tanto despreza as grandes narrativas. Perante a ditadura do ligeiro, da leveza, do rápido, é possível fazer pesar nos ombros de uma plateia, em uma …
Uma das mais basilares regras de todo o texto dramático, na sua aceção teórica, é a de que este propõe materializar-se numa lógica espetacular. O palco, a presença de um público, a cenografia, a luz, o som, são imanências do próprio texto escrito, adaptadas pelo encenador de forma mais ou menos conservadora, no sentido denotativo …
A documentação extensiva, aliada à narrativa-comentário aos eventos que, embora imitando um registo historiográfico, se apoia predominantemente numa linguagem de tom lírico, resulta num equilíbrio que faz de El-Rei Junot um poderoso manual do zeitgeist europeu da altura.
O que Campo minado faz, porém, é algo maior que isto: mostrar o que resta de todos os soldados que combateram e que não se suicidaram.
Exaltamo-nos fazendo de conta que a portugalidade nunca fez mossa a ninguém, que é fofinho e enternecedor o tal retângulo ajardinado com gente boa e simpática de vinho sobre mesa. É claro que eu partilho do júbilo pela vitória no europeu de futebol ou em qualquer conquista nacional, mas não é isso que está em questão. Do que aqui falo é da patologia que, a partir de eventos desse tipo, adquire contornos psicossomáticos coletivos, a portugalidade, que não é uma característica inofensiva.
Por um acaso do destino, assisti na mesma semana e em dias seguidos, a “Na via láctea”, de Emir Kusturica, ainda em exibição no recém-aberto Cinema Trindade, e aos dois espetáculos do Foco Deslocações, no Teatro Municipal do Porto (Campo Alegre), respetivamente por Dorothée Munyaneza, do Ruanda, e Mithkal Alzghair, da Síria.