Um Dom João Português não responde, a nosso ver, de forma eficaz aos questionamentos que o nome da peça promete, ao não tornar, de forma convincente, o texto-base num veículo de uma mensagem que ultrapasse as necessárias diferenças contextuais entre época de origem e época da encenação; constitui, isso sim, e não é necessariamente pouco face à crise que vivem tantas companhias de teatro, um laboratório pujante sobre as possibilidades do trabalho dramatúrgico.
Nestas Cartas e Outros Documentos 1925-1975 de Hannah Arendt e Martin Heidegger, com publicação em Portugal pela Guerra e Paz, em adaptação da tradução brasileira, supõe-se inevitável a questão sobre como foi possível a alemã de origem judaica manter contacto com o mentor e amante, mesmo após a sua entusiástica colaboração com o regime nacional-socialista.
Não é uma dramatização do romance de Virgina Woolf, assume-se antes como uma transfiguração do romance numa outra coisa, que coloque em evidência as questões que dele emanam, trabalhadas pela investigação literária exaustivamente, e que aqui adquirem novos sentidos, ou, para sermos mais exatos, apelam à possibilidade de reconstrução constante de novos sentidos.
Esperamos que este seja só o início e lançamos o repto: “A Promessa” é a primeira parte de um tríptico composto por “O Bailarino” e “A Excomungada”, onde os comportamentos neuróticos só se vão exacerbando, respetivamente por parte de um bailarino homossexual e de uma candidata a freira que sexualiza a ideia de Deus. Porque não manter o ritmo e dar a conhecer ao grande público estas joias inutilizadas por essas bibliotecas fora?
A perspetiva de narração heterodiegética e a ausência de floreados literários torna a obra acessível (e dirigida) ao grande público. Mais para o final do livro, e com o autor perto da morte, surge a intertextualidade autorreferencial como que a fechar a Obra de uma vida. Será sobretudo este aspeto que explicará o sucesso deste seu último livro nos Estados Unidos.
Resta, apesar de tudo isto, saudar a existência do filme, e a insistência e coragem de João Botelho em passar à tela obras fundamentais da literatura portuguesa, como foi o caso de “Os Maias” (2014) e “Filme do desassossego” (2010).
Este livro convoca ações, discursos, corporativismos, que fariam dele um poderoso romance literário, uma crónica de costumes sobre o espírito do nosso tempo. Não é. Não há ficção, há serviço público neste livro: estatísticas, tabelas, gráficos, extensa bibliografia sobre o lóbi.
Com traduções de Paulo Quintela, João Barrento, ou Yvette Centeno, entre muitos outros (identificados junto a cada uma das traduções), é uma edição bilingue, com poemas portugueses traduzidos para alemão, e vice-versa. O volume apresenta-se cuidado na explicação da sua organização, desde aspetos de ordem ortográfica, à informação sobre fontes consultadas, à bibliografia utilizada. Um portento, portanto, tanto para leitores portugueses como alemães.
“Sabemos da insuficiência da nossa sensibilidade para tanta dor que não conhecemos porque não sabemos o que é ter de, obrigatoriamente, enfrentar um deserto, um mar, com fome, com sede, com feridas, com suspeitas de estar grávida, com buracos no corpo, com perdas durante o caminho, materiais, humanas, físicas. É uma realidade que nos está barrada. “
“Sobre a tirania é urgente e fundamental…”