Num plano mais profundo, a prosa de Ana Teresa Pereira recorda-nos o poder paralisante do condicionamento a que a mulher está sujeita praticamente desde a primeira inspiração.
Um trabalho de grande valia que, com parcos meios e detalhes de bom gosto, como a música original tocada ao vivo por Paulo Pires, consegue a proeza de desenhar os contornos essenciais de uma realidade ampla sem o paternalismo e o peso habitual do teatro mais político, optando pelo humor e a ironia para convidar o público a pensar o seu mundo.
Estes quatro não sabem errar, e as suas músicas sem refrões assobiáveis ou coros marcantes vêm carregadas de melancolia, mas também libertação, aquela esperança vã de que falar dos elefantes na sala de tantos possa ser o segredo para a felicidade.
O texto é certeiro. Retrata esta meia dúzia de vidas de um modo sagaz e humano, deixando margem aos actores para conduzirem as personagens e ao público para se integrar e inteirar do que vê, sem manipulações ou maniqueísmos, o que não significa que seja neutral ou ambíguo.
Música de encontros e desencontros, manteve intacta a sua matriz introspectiva e nostálgica, convidando o desejo oculto finalmente segredado e a dança bem colada para cristalizar cada palavra e acorde.
Pedro Frias é a alma deste festim de interpretação teatral, num verdadeiro combate contra o tempo e a resistência a um texto inclemente e de extrema exigência.
A atenção exigida é largamente compensada pela complexidade e brilhantismo do texto do escritor brasileiro Bernardo Carvalho e pela disponibilidade de Pedro Almendra, que, em pouco mais de uma hora, percorre um espectro inimaginável de pequenos detalhes físicos, tiques, modulações vocais e tons sentimentais, numa composição (mais uma…) memorável…
Um espectáculo inesquecível, por uma equipa capaz de se colocar ao serviço do texto e da sua originalidade. O Teatro como deve ser.
Peter Brook tenta um malabarismo entre a sua experiência pessoal e a delimitação dos critérios mínimos para que determinado espectáculo possa ser chamado de Teatro.
Sabujo é a prova de que o teatro não se mede aos palmos e a verdade se encontra nos lugares mais insuspeitos.