Nos doze contos que compõem As Coisas Que Perdemos no Fogo, Mariana Enriquez põe ao serviço da escrita princípios como fantástico, sobrenatural e, num quadrante distante, naturalismo. Que a escritora abarque tão admiravelmente esse inconciliável já deve ser tido por indício da sua força expressiva e da segurança da sua arte. Talvez não se devesse …
Em vésperas do concerto no Vodafone Paredes de Coura, Brian King and David Prowse, conhecidos mundialmente como Japandroids, escolheram o Maus Hábitos, espaço mítico da Invicta, para iniciarem a sua digressão mundial, com um concerto intimista para umas dezenas de privilegiados, anunciado apenas dois dias antes na página de Facebook da banda. Com um alinhamento repleto …
Rainer Maria Rilke é um exemplo raro na literatura moderna de um poeta que nunca desejou escapar às duras exigências da sua natureza humana ou da sua arte, alguém cuja obra amadureceu em pleno conjunto com a sua vida. Todos os leitores têm presente nas suas mentes diferentes imagens de poetas, cada um com distintas …
Sobre Jon Fosse, já muito foi dito, inclusive aqui na INTRO. Dono de um registo dramático e linguístico facilmente identificável, este O Homem da Guitarra, interpretado por um corajoso Manuel Wiborg no Teatro Carlos Alberto, apenas confirma a sua destreza na criação de personagens maltratadas pela vida, como se de um fado irremediável se tratasse, …
O Teatro Meridional comemora 25 anos. Em janeiro de 2017 iniciou a reposição de seis espetáculos, nos quais se incluem O Sr. Ibrahim e as flores do corão, de Éric-Emmanuel Schmitt (que contou com a presença da INTRO) e este Contos em Viagem – Cabo Verde, que parte de textos de vários autores caboverdianos. O …
Tanto a novela epónima, quanto os sete contos que completam A Guerra de Samuel, desenvolvem uma premissa essencial: a espiritualidade num tempo irremediavelmente (?) laico. Estas ficções de Paulo Varela Gomes põem em confronto a tradição espiritual, de matriz judaico-cristã, e diversas manifestações do materialismo. Teorético, político, ou adstrito às práticas quotidianas, esse materialismo é sempre …
Salvador Sobral começou por falar da insónia pré concerto, fruto da excitação, da expectativa em relação ao momento em que aquele concerto, no Centro Cultural de Belém, iria acontecer. Foi fácil contagiar o público com o jeito genuíno de ser e de dizer, partilhar, sem filtros. Pediu para desligarem os “bichinhos eletrónicos” em troca de …
Libreto para ficarem em casa seus anormais está em cena na sala estúdio do Teatro D. Maria II. A estranheza começa aí. No confinamento da ópera a uma sala menor, em dimensão e grandeza. Este espetáculo é uma provocação desde o primeiro momento. A começar pelo título. Sem vírgulas, a um jorro, a um fôlego, …
A tragédia de António e Cleópatra, sobejamente conhecida, encontra na encenação e texto de Tiago Rodrigues (estreada originalmente no D. Maria II em 2015), uma adaptação ao mundo atual, que tanto despreza as grandes narrativas. Perante a ditadura do ligeiro, da leveza, do rápido, é possível fazer pesar nos ombros de uma plateia, em uma …
Uma das mais basilares regras de todo o texto dramático, na sua aceção teórica, é a de que este propõe materializar-se numa lógica espetacular. O palco, a presença de um público, a cenografia, a luz, o som, são imanências do próprio texto escrito, adaptadas pelo encenador de forma mais ou menos conservadora, no sentido denotativo …