“Sabemos da insuficiência da nossa sensibilidade para tanta dor que não conhecemos porque não sabemos o que é ter de, obrigatoriamente, enfrentar um deserto, um mar, com fome, com sede, com feridas, com suspeitas de estar grávida, com buracos no corpo, com perdas durante o caminho, materiais, humanas, físicas. É uma realidade que nos está barrada. “
“O estilo de Mário de Carvalho consegue ser sumptuoso, inventivo e denso…”
A sala Mário Viegas, do Teatro São Luiz, recebeu a “Arte da Fome” e deixou-nos o entusiasmo amputado, mas fica o agradecimento pela escolha do texto. Saímos, talvez não todos, com vontade de o ler, ou reler, e descobrir, em silêncio, angústias que são dos artistas e de todos nós. Faltou o resto.
Um triunfo e uma demonstração cabal de que tudo é possível em teatro, desde que o bom gosto e a coerência sejam pontos cardeais do espectáculo.
As conclusões são da nossa responsabilidade, como também é nossa a opção de mergulhar a cabeça na espuma dos dias e deixar que nos invada a abnegada e entediante inacção perante inoperância de um sistema obsoleto e necessariamente incapaz de verdadeira justiça, perante tamanha e imprevisível diversidade de juízos e mundividências.
“Sobre a tirania é urgente e fundamental…”
Edgar Allan Poe foi um explorador exímio de estados extremos. Quer estes se manifestassem através de uma sensualidade obsessiva e malsã (…) quer dessem a conhecer o seu fascínio perturbante pela via da loucura, ou da aterradora ameaça dela.”
“Saímos a revisitar o texto, frases, momentos, ironias, e, sobretudo, a nossa vida.”
” Este romance longo e poderoso, é uma demonstração plena da capacidade da ficção de explorar as obsessões históricas de um país. Ao longo deste romance, sem termos uma resolução final para o enredo, nem uma explicação cabal sobre a verdade ou falsidade das teorias de conspiração apresentadas, verificamos como a precaridade da vida familiar se constrói sobre crimes históricos passados, que se perpetuam pelo presente e pelas gerações futuras.”
Deste romance de estreia de Ottessa Moshfegh se poderia dizer que tem tudo para falhar. Tem tudo, mas não há nada nele que confirme esse vaticínio de catástrofe. Porque se salva da asfixia causada por uma primeira pessoa sufocante, um enredo concentracionário encurralado pela mágoa, castigado pelo ressentimento, consumido por uma raiva que poderia escaqueirar …