Os Inimigos da Liberdade – Teatro da Trindade, 18/12/2019
Pode alguém ser livre no deserto? É este o labirinto crucial da encenação.
Pode alguém ser livre no deserto? É este o labirinto crucial da encenação.
E ali estão eles, com a sua linguagem vernacular e obscena, carregada de elegância na melhor tradição, como também lembra Waddington, de um João César Monteiro que conversa com Manuela de Freitas sobre sexo oral à porta do parlamento, mas sempre, sempre, acompanhado das mais requintadas bandas sonoras.
Surpreende, ainda, inevitavelmente, a actualidade de uma tragédia escrita originalmente em 1894, talvez porque a história da Humanidade se continue a centrar na avidez e no desejo, nas conquistas materiais e sexuais, nas pulsões, nos desejos que tornam cada um de nós mais ou menos patético, mais ou menos vulnerável.
Pedro Frias é a alma deste festim de interpretação teatral, num verdadeiro combate contra o tempo e a resistência a um texto inclemente e de extrema exigência.
A atenção exigida é largamente compensada pela complexidade e brilhantismo do texto do escritor brasileiro Bernardo Carvalho e pela disponibilidade de Pedro Almendra, que, em pouco mais de uma hora, percorre um espectro inimaginável de pequenos detalhes físicos, tiques, modulações vocais e tons sentimentais, numa composição (mais uma…) memorável…
Um espectáculo inesquecível, por uma equipa capaz de se colocar ao serviço do texto e da sua originalidade. O Teatro como deve ser.
A dinâmica na alteração dos cenários, feita pelos próprios actores, é soberba, realçada pelo fantástico jogo de luzes e escolha musical que, com realismo, transporta o espectador ao ambiente decadente e desenfreado da intimidade das personagens.
Karōshi é uma palavra que assume aqui um duplo sentido. Ela designa uma epidemia identificada pela OMS como a morte por excesso de trabalho, mas condensa, igualmente, o momento histórico das nossas sociedades, no qual o trabalho, a produtividade e a mercantilização do tempo se tornaram o alfa e ómega da nossa relação com o mundo.
Vemo-nos ao Nascer do Dia é sobretudo um magnífico momento a duas personagens, duas actrizes às quais, muito merecidamente, terminamos rendidos.
Carmen Santos e Luís Lima Barreto conseguem tornar credível uma conversa com fantasmas, um conjunto de cadeiras vazias onde imaginariamente dois velhos sentam os seus convidados.