Canção Doce – Leïla Slimani (Alfaguara, 2017)

A marroquina Leïla Slimani criou uma obra ambiciosa e impactante, bem para além da derradeira página, não só pela crueza dos factos, mas pela ténue culpa que desperta em nós, testemunhas silenciosas e cúmplices de uma estrutura societária e familiar anquilosada em colapso iminente, que em Canção Doce, cede pelo lado mais fraco, com efeitos devastadores.

A Glória e seu Cortejo de Horrores – Fernanda Torres (Companhia das Letras, 2017)

A história é-nos contada, quase na sua totalidade, na primeira pessoa, como um diário escrito pelo protagonista, Mário Cardoso, actor carioca de meia-idade e ídolo caído das novelas que, consciente da sua decadência, tenta recuperar o brilho de outrora regressando ao início de tudo, ao teatro, com a encenação de uma versão de “Rei Lear”, tragédia shakesperiana de 1606.

O Apelo Selvagem – Jack London (Bertrand Editora, 2017)

O livro vive da importância das coisas simples, das forças telúricas da fome e do frio, simplicidade que se estende às palavras de London, às personagens, aos cenários. Sem figuras de estilo complexas, ou adjectivação criativa, o léxico usado pelo escritor é o das pedras, da água, do cansaço, da dor, do amor, da raiva, da vingança, presentes em Buck em estado bruto.