É inevitável que, sendo esta a última obra de Sam Shepard, escrita quando já profundamente acometido pelas debilitações da esclerose lateral amiotrófica, que causou a sua morte em 2017, se lhe atribua um carácter autobiográfico. É impossível não fazer o paralelismo e fantasiar que Shepard nos deixou um breve vislumbre dos seus últimos pensamentos, mostrando-nos os fragmentos de clarividência, confusão, das quimeras e memórias que o assolaram perto do fim.
Diz George Santayana – numa frase simbolicamente gravada à entrada do Museu de Auschwitz-Birkenau – que aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo. Este Grandes Discursos da História, na sua singeleza e despretensão, é um elogio a estas Memórias.
Um dos pontos mais relevantes das cartas será o cariz comunitário desta correspondência entre artistas que pretendem estreitar os laços intelectuais e emocionais que os unem, numa troca de palavras, promessas de pôr Laurens em contacto com outros artistas e de divulgar o seu trabalho em Portugal, pedidos de divulgação e tradução dos seus poemas para o holandês, artigos de jornal (…), discos de Satie, impressões sobre gatos, um poema de Cesariny sobre o fim do colonialismo português, gravuras de Cruzeiro Seixas, pinturas, revistas e outros artefactos culturais, criando um cadáver-esquisito transnacional (…)
O ponto focal do livro é a viagem. A viagem como deslocação, como processo de sairmos de onde estamos, independentemente do destino, mas também como movimentação do Eu para fora de si, mesmo que depois retorne não sendo quem foi, porque a viagem todos muda.
Tal como nos seus livros anteriores, Pizarro dá ao leitor os dados que tem e apresenta uma hipótese geral e temática para os interpretar, fazendo uso de um amplo leque de opções interpretativas, que passa tanto pelo trabalho dos seus contemporâneos, como pelo enquadramento cultural e político da época e pela interpretação dos textos, privilegiando a abrangência e abertura do seu raciocínio em deterimento de uma hermeneutica em vácuo e manipulada para um resultado, como vemos em tantos exemplos ligados ao estudo do poeta lisboeta.
A importância de um livro como este nos tempos que correm é evidente: todos aqueles que consideram a via populista perigosa para os destinos da política mundial precisam de munir-se, em primeiro lugar, de argumentos. Isto implica, em segundo lugar, um posicionamento político. O que leva, em terceiro lugar, à necessidade de conhecimentos concretos sobre o contexto histórico da viragem do século XX para o XXI.
Uma obra do tipo da que aqui lemos – os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos – para poder trazer algo de efetivamente interessante e que satisfizesse a avidez do leitor, teria de cumprir uma destas finalidades. E é com alguma pena que dizemos que não o faz.
Políticas da Inimizade, quer se concorde com as ideias do autor ou não, é um potente instrumento de agitação mental, porquanto tem a inegável vantagem de ser uma visão sobre as democracias liberais que não tem nelas a sua origem, bem como as coloca sob um jugo histórico que muitas vezes ou se olvida, ou não se quer ter presente.
Será invulgar o talento de Eduardo Galeano para as histórias curtas. Nascido em 1940 e falecido em 2015, o escritor uruguaio deixou uma obra extensa e abrangente. Da ficção ao jornalismo, da análise política à história, tornou-se numa das maiores influências intelectuais e artísticas além-mar. O Livro dos Abraços chegou a Portugal em Março de …
Os mais de 30 anos do País Basco sob o terrorismo não são apenas panorama, mas o livro está longe de ser panfletário. A política existe, é tratada, deixa marcas, mas Aramburu evitou a caricatura ou a ficção professoral. É que a narrativa foi beber à vida do autor, às suas experiências, a reais tensões sociais, políticas e pessoais que marcaram gerações.